Auto biografia artística virtual. Registros de eventos, resenhas, crônicas, contos, poesia marginal e histórias vividas. Tudo autoral. Quando não, os créditos serão dados.

Qualquer semelhança com a realidade é verdade mesmo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Iana

Seu perfil sempre aéreo
É embalado ao som stéreo.
Aparenta não ter estrutura,
Mas guarda grande cultura.
Pequena garota sincera,
Iana soma em sua era.

Desconhece a própria beleza
Humildade lhe faz alteza.
Espírito de suma tranqüilidade,
Bondade com naturalidade.
Alma pura naturista,
Iana limpa qualquer vista.

Permanece dias desaparecida,
Deixa a ausência sentida.
Uma semana incomunicável,
E-mail e telefone instável.
Liberdade de limite imprevisível
Iana é marcante mesmo invisível.

Sua fala calma cativa
Intelecto de guerreira ativa.
Disposta sempre pra ajuda
Amiga, companheira profunda.
Encanta com afeto a carinhosa
Iana confirma ser amorosa.


Por: Mário Orestes Silva.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A Grande Farsa Do Rock 'N' Roll

Resenha feita para o blog do programa Vertical Classic Rock.





Cartaz do Filme de Julien Temple

Com direção de Julien Temple, essa produção de 1979 (lançada em 1980) mostra o saudoso empresário Malcom McLaren explanando sua teoria de como fazer sucesso no mainstream da indústria musical. A meteórica carreira dos Sex Pistols e sua história de ascensão e queda, prova a teoria de Malcom, usada na banda como um dos “enlatados” de maiores sucessos do Reino Unido. A filosofia do lucro pelo caos, do ódio como maior arma e do abuso da estupidez e da sexualidade, casam perfeitamente nas performances anárquicas da banda, na pose de Sid Vicious como expoente violento e das passagens em desenho animado que ilustram parte da película entrecortada por lições de McLaren como grande mentor alienista.

Malcon Mclarem e o lucro pelo caos


Sid Vicious em sua performance onde no término saca uma arma e atira aleatoriamente na platéia, acertando inclusive sua namorada Nancy Spugen.



Uma grande curiosidade do filme é a passagem de Steve Jones e Paul Cook (respectivamente guitarrista e bateirista) pelo Brasil para encontrarem, o assaltante bem sucedido, Ronald Biggs que se refugiava aqui na terra da banana e do carnaval. Outra boa curiosidade vai para o disco trilha sonora que além de versões raras dos Pistols, tem o registro vocal do já citado Biggs na sarcástica “No One Is Innocent”, uma versão francesa folk de “Anarchy In The U.K.” que virou “L’ Anarchie Por Le U.K.”, versão orquestrada da música “EMI”, dentre outras preciosidades.
Humor e muito rock and roll miscigenado com um ar sombrio e um tanto de violência explícita fazem deste um ótimo exemplar de vídeo documentário musical onde a verdade se sobrepõe ao mito, causando revolta desde telespectadores conservadores, que quebraram seus aparelhos de TV assistindo entrevistas com os “Pistolas Sexuais”, até à coroa inglesa detratada nas letras das canções e na arte gráfica de material promocional.
O próprio Julien Temple viria a dirigir “The Filth And The Fury”, outro documentário sobre os Sex Pistols, lançado no ano de 2000, mas isso ficará pra outra resenha.


 Capa da trilha sonora do filme

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Urubu

Numa certa fase do Clube Dos Quadrinheiros De Manaus, o símbolo do grupo (o urubu lendo gibi) ficou muito popular.  Ainda hoje ele é uma boa representatividade dessa malucada.  João Castilho quando criou o símbolo, justificou-o pelo fato de Manaus ser uma cidade com grande número de urubus.  Seja nos bandos que voam em círculos pelos céus, alojados no cume de postes e árvores ou catando seu alimento nas lixeiras, eles estão lá.  Ilustração perfeita de nossas decadências urbanas, quase um parasita da humanidade, transmitem uma poesia única da nobreza de uma animal que não possui predador natural, emana um vôo tranqüilo de planador que pode alcançar grandes altitudes e encontra seu alimento em abundância por ser praticamente onívoro.
O bicho escapou dos limites do círculo do símbolo e chegou a ser explorado em história em quadrinho, folders de evento dos Quadrinheiros, capa de fanzines e outras coisas mais.  Abaixo a reprodução do símbolo oficial e uma versão que fiz para uma filipeta que divulgava o extinto site do grupo.  Em minha versão, coloquei sobrancelhas (ausentes no tradicional) que deram um ar sagaz no protagonista.



segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Peixeiro

Com a história em quadrinhos “O Peixeiro” eu e Romahs ganhamos nosso segundo prêmio (1° lugar no II Salão de Humor e Quadrinhos, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas no ano de 2001).  Já havíamos ganhado, também o lugar no I Salão no ano de 1999, mas essa HQ premiada (Tia Carlota) não temos nem cópias dela.  Quando tentamos conseguir cópias com o Secretaria de Cultura, recebemos um “não” humilhante com a justificativa de que o trabalho fazia parte do acervo cultural da Secretaria.  Hoje o material deve estar servindo de alimento pra traças e baratas em algum arquivo morto intocável.
O Peixeiro” foi uma história planejada para a premiação no Salão.  O roteiro foi calculado friamente onde todos os elementos cativantes para o júri, estava lá.  A briga entre o bem e o mal, o romance, o humor, o protagonista poético amazônico, a presença do Estado como controlador, a classe média, enfim, tudo que causasse identificação com o leitor envolvido no julgamento do Salão.
As cores foram colocadas pelo super talentoso e infelizmente saudoso Izandro Souza que curiosamente participou do Salão e ganhou o lugar.


domingo, 26 de setembro de 2010

Front Zine 3

No “Front Zine” n° 3 Fábio Prestes, como fã de Leonardo Da Vinci, fez a sua devida homenagem.  A partir de então, sem querer, começamos a chamar a atenção dos funcionários do Jornal Do Norte.  Reproduzo abaixo o texto de minha autoria por estar ilegível na foto da página.


ROCK EM DECADÊNCIA

Por onde anda o bom e velho Rock ‘n’ Roll?  Antes purista e envolvente, agora encontra-se falsário e medíocre?  O rufar dos tambores que introduziram os anos 80 mostrou-se enlatados com “armas e rosas” e conservantes para durar como moda.  Tony Iommy que nos perdoe, mas o Black Sabbath não é mais o mesmo e a muito tempo que a banda deveria ter acabado.  Iron Maiden (quem diria, o grande Iron...) provou com seu “Fator X” que estão aí mais pra vender as capas super produzidas e o logotipo bonitinho.  “X Factor” é ótimo pra boi dormir.  Metallica que era uma das bandas mais undergrounds, tem seu álbum negro nas mãos de qualquer mauricinho.  Isto sem contar com as centenas de bandas de hard rock americanas que soam coincidentemente iguais.  Se o espaço não fosse tão curto, dezenas de bandas, discos e evidências seriam citados.  Na terra da banana Mamilos Matadores plageiam descaradamente Titãs, The Clash, Pantera e outros, enquanto Ira!, Camisa de Vênus, Inocentes, Kães Vadius e a Envergadura Moral continuam com pouco espaço para divulgação.
Bobão estava certo.  O rock errou.  E feio!

sábado, 25 de setembro de 2010

Isabela


A chegada sentida
Com uma maçã mordida.
O sorriso na cara
Expondo verdade rara.
Como a lua minguante
Uma beldade fronte.
De uma altura bela
É a Isabela.

Passado findado
Pelo pequeno amado.
Por ser muito peralta
Não lhe deixa incauta.
Reclama atenção
Que ela nunca diz não.
Maternidade bela
Tem a Isabela.

Mais um livro lido
Seu conteúdo obtido.
O disco tocado
Virado de lado.
Mãos ocupadas
De malícias danadas.
Conjuntura bela
Possui a Isabela.

O amor vem com tudo
Boca de veludo.
Língua macia
Que tudo acaricia.
Suor abundante
Incansável amante.
Performance bela
Exercita a Isabela.

Gemido em pio
De uma gata no cio.
Delicioso pescoço,
Orelha, queixo e rosto.
Com o corpo perfeito
Estendido ao leito.
Formosa e bela
Gostosa a Isabela.

Por: Mário Orestes Silva

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Entre Papéis e Nanquins - O Clube Dos Quadrinheiros De Manaus

Um dia desses fui procurado por uma garota, estudante de Jornalismo, que queria fazer um documentário sobre o Clube dos Quadrinheiros.  Ela se mostrou muito interessada. Me telefonou várias vezes e trocávamos altas conversas pelo MSN.  Arranjou o Espaço Cultural Valer como locação e apareceu lá com uma equipe de estudantes e uma parafernália de equipamentos.  Prometeu cópia em DVD e postagem no You Tube do produto acabado.
Compareceram (além de mim) Adalberto Júnior, João Vicente, Déborah Carla e Adelino Lobato.  Logo depois das filmagens as garotas sumiram.  Fiquei em contato com uma delas que dizia não poder dar nenhuma posição de como estaria o vídeo. Algum tempo depois, elas apresentaram o trabalho e tiraram nota 9 pelo feito.  Eu cobrava o vídeo, mas sem sucesso nenhum.  A garota que antes conversava comigo entusiasmada e prestativa, agora nem sequer me respondia no MSN.  Pouco tempo depois, a outra que eu tinha contato também parou de me responder pelo MSN.  Sumiram.
Fiquei puto.  Fomos usados por um grupo de estudantes pra elas conseguirem a nota desejada na faculdade e depois fomos descartados como um absorvente usado.  Bem, não seria a primeira vez que eu era usado por mulheres, mas essa foi simplesmente por interesses acadêmicos e nem sexo rolou.  Que merda!
Meses depois, sem querer eu encontrei o vídeo postado no You Tube.   Elas não nos deram nenhum tipo de satisfação.
Aí está o trabalho final.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Phodas-C 69

Enquanto o “Phodas-C” n° 0,5 teve uma temática mais voltada para as drogas, o n° 69 abordou a sexualidade de uma maneira bem genérica.  Acompanhava o zine, um preservativo como brinde.  Um conhecido que comprou um exemplar, disse estar comprando só pelo brinde.
Como dito antes, capa, editorial, última página e contra capa são de minha total autoria e todo o miolo de autoria do meu amigo Adelino Lobato.



Os autores do “Phodas-C” numa foto em que intencionalmente posamos de intelectuais satirizando essa raça desgraçada que pensa ser superior.  Este que vos escreve e Adelino Lobato.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Jorge Cabeleira e o Dia Em Que Seremos Todos Inúteis

A resenha a seguir eu fiz para o blog do programa Vertical Classic Rock.  Na verdade trata-se de um disco que penso ser maravilhoso e em breve eu postarei mais resenhas nesse blog de outras bandas, discos, filmes, livros ou outras coisas que admiro.


 Quando lemos uma resenha de disco, sabemos tratar-se de um álbum conhecido clássico ou de um lançamento que certamente não demorará pra estar rodando de mão em mão entre os amigos.  Porém quando se trata de um disco desconhecido, de uma banda menos conhecida ainda, o prato pode ser indigesto pra maioria acostumada a receber tudo já divulgado pela indústria fonográfica.  Contudo, meus amigos, se vocês forem mais perspicazes no tocante a procura, nem precisa ser uma pesquisa profunda, pode-se conhecer sons surpreendentes que levantam facilmente o questionamento do porque aquele tal disco não ter estourado na mídia.
Cenário: rock nacional do nordeste brasileiro.
Época: década de 90.
A estagnação criativa imperava na releitura de tudo o que já havia sido feito.  Nos E.U.A. surge o grunge que remodelou o punk e surgiu com moda (alguns dizem tendência) no vestuário, na sonoridade e na atitude de centenas de bandas.  No Brasil, algo pra salvar a década: um ímpeto underground artístico que ficou conhecido como mangue beat.  Dentre tantas bandas que estamparam sucessos em rádios e na MTV, algumas ficaram no ostracismo, apesar de serem excelentes.  Uma dessas é a desta resenha.  “Jorge Cabeleira e o Dia Em Que Seremos Todos Inúteis”.  Sim, o nome desta banda de Recife é este mesmo.  E o disco abordado é o homônimo à banda, primeiro álbum lançado pela Sony Music em 1994.
12 Badaladas” abre o trabalho apresentando logo de início influências de histórias em quadrinhos, desenhos animados, filmes trash, hard core e música nordestina.  “Jabatá E O Diabo” narra uma história de terror em pleno sertão selvagem.  “...ladrão praga, enchente e um bando de gente doente” abundam com o sorriso do diabo enquanto Jabatá diz “Quero toda safada enrolada num pano preto melado de sangue e cera de vela queimada”.  “Sol e Chuva” é uma versão da música de Alceu Valença que aqui ganha uma roupagem contemporânea e certamente satisfazendo o autor.  “Carolina” mostra como até Luiz Gonzaga pode virar uma versão de muito bom gosto alternando partes de forró de pé de serra com hard core que cativam para o pogo.  “Nervoso Na Beira Do Mar” é poética.  Começa com uma batida preguiçosa de guitarra elétrica, transformando-se num punk rock de primeira.  “Silepse” mantém o ritmo de punk rock misturado com baião com letra regional e retratando a realidade sertanista. “A História Do Zé Pedrinho” conta uma tragédia nordestina de traição conjugal de uma maneira tão simplista que chega a ser envolvente em sua narrativa. A poesia de “O Dia Em Que Conceição Subiu A Serra” mostra como levar o ritmo nordestino com guitarras de uma maneira bem peculiar.  “Canudos” é uma tragédia megalomaníaca em que remete o ouvinte a um dos episódios mais sangrentos da História do Brasil onde o Estado reprimiu e chacinou um povo que só queria viver em uma comunidade independente.  “Os Segredos De Sumé” é outra versão, agora de Zé Ramalho e conta com a participação especial do próprio que atesta a boa miscelânea musical provocada.  “Recife” é uma espécie de desabafo que prega a reforma agrária, a descriminalização da maconha e reclama das condições precárias do homem do sertão e do favelado da capital.  “Psicobaião” poderia muito bem ter sido composta por um dos grandes nomes da música nordestina, já citados aqui.  “Carnaval” fecha o disco com um dos hard core mais raivosos já registrados pela indústria fonográfica.  É a única música do álbum que não tem influências nordestinas e exatamente como um carnaval, passa o clima de desordem.
Em suma, instrumentos de arranjos como guitarras distorcidas, triângulo e sanfona, em parceria com o sotaque carregado e desleixado, equilibram a raiva do recifense urbano e do agricultor abandonado no sertão.  Dificilmente surgirá uma outra banda que conseguiu essa coerência perfeita entre baião, punk rock, forró e hard core.  Pena o grupo não existir mais.  Porém o legado está registrado comprovando que o criativo, o empolgante e o poético nem sempre estão disposto de uma maneira mais aberta para o público em geral.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Estigma Do Sublevado


A segunda crônica minha postada no site Whiplash.net, mais precisamente em 13 de dezembro de 2007.  Na primeira (“Acordes Corrompidos – Uma Análise da Influência Que o Cifrão Provoca Na Arte”, também postado aqui – ver arquivo do blog), cheguei a ser ameaçado por um fã do Slayer.  Nesta daqui uma garota postou um comentário dizendo ser um tesão o escrito.  Adoro quando os extremos opostos se manifestam sobre mim.




Com a crescente onda de violência por parte das tribos urbanas contemporâneas em grandes centros como Nova York, São Paulo, Londres e outras cidades, muito se tem especulado a respeito da equivalência dos ditos ideais para com os atos dessa delinqüência, principalmente por parte da mídia bajuladora. O fenômeno marginal incomoda não só as vítimas das agressões diversas praticadas, mas também pessoas de boa índole que se vêm na condição de coadjuvantes aleatórios, visto que por ventura esses fatos lamentáveis acontecem em shows, pontos de encontro, bares, lojas e outros lugares públicos. A questão implica que o problema é sociológico e pode até ter uma solução, mas em longuíssimo prazo.
O PROBLEMA:
Desde a Revolução Industrial que a humanidade vem saboreando o fel da explosão demográfica com todas as suas conseqüências de crises em progressões que abrangem impactos ambientais, desemprego, fome, miséria, epidemias, violência dentre outros males que afetam direta ou indiretamente a vida de cada um de nós. Especialistas e sociólogos são unânimes em afirmar que alguns desses tópicos estão constantemente em ascensão e que se medidas mitigadoras não forem tomadas, colapsos serão inevitáveis e abalarão outros aspectos sociais, políticos e econômicos num “efeito dominó” de resultados drásticos e irreparáveis. Alguns desses efeitos já são visíveis e mostram-se claramente fora de controle apesar dos governantes embusteiros demagogicamente viverem apresentando dados estatísticos e financeiros de investimentos, mudanças e melhorias. Dentre os exemplos mais evidentes pode-se citar a máfia das grilagens de terras, atrelada indiscutivelmente à falta de uma reforma agrária séria em nosso país; a bio-pirataria que movimenta milhões de dólares e demanda interesse para as indústrias farmacêuticas e de cosméticos do mundo inteiro; a prostituição infantil e juvenil que tem o Brasil como um dos maiores fornecedores; o desmatamento, nosso país já é o quarto maior emissor de gás carbônico (CO2) na camada atmosférica devido à descontrolada expansão agrícola que visa unicamente o lucro; e o tráfico de drogas que nos tem como grande consumidor, rota de comércio e no estado do Rio de Janeiro sitia os moradores numa guerra civil. Todos esses assuntos podem parecer singulares e de certo modo são, mas estão intrinsecamente cruzados por uma eterna cultura provinciana que é perpetuada pelo interesse de magnatas que ganham muito dinheiro com isso e têm influência nos poderes legislativo, judiciário e executivo de norte a sul e de leste a oeste.
Percebe-se que no extenso parágrafo acima, em nenhuma vez foram citadas palavras como punk, metal ou skin. Porém, a explicação se faz necessária para entendimento de que o problema da violência nas tribos não tem nada a ver com rock, independente de um estilo ser mais agressivo, expressivo ou underground que o outro. Em análise ao seguido, o leitor atinará que a questão é mais cultural do que minimalista e requer a atenção não de autoridades repressoras e moralistas de plantão, mas de sociólogos, educadores diversos, fomentadores culturais e principalmente daqueles que gostam de um bom rock ‘n’ roll.
CAUSAS:
Não é de hoje que os países em desenvolvimento têm deficiência aguda na educação. Como foi dito acima, temos uma perpétua cultura provinciana que é herdada naturalmente de quem já foi colônia e amarga a dependência econômica de seus colonizadores com o passar dos séculos. Com economia deficiente, a educação será deficiente, assim como infra-estrutura, saneamento básico, saúde etc. Infelizmente a ignorância prevalece frente ao desenvolvimento e antes que alguém diga que isso é um panorama mundial, mostremos as informações de que enquanto na Europa, cada cidadão lê uma média de oito livros por ano, no Brasil essa estatística cai pela metade. Enquanto no velho mundo existem mais livrarias do que shopping centers, no país do futebol, os dados se invertem. Essa miséria cultural estende-se especificamente sobre um vetor, o povo. Como a população brasileira é formada em sua maioria por jovens, são estes os maiores sofredores desse efeito colateral colonialista. Sem muito esforço intelectual, nota-se que as tribos urbanas com complexo de gladiadores momentâneos, são formadas exclusivamente por jovens. Muitos desses, acabaram de sair da adolescência e ainda estão a procura de um caráter próprio e em processo de formação de sua personalidade, logo, cheios de dúvidas, incertezas e conflitos existenciais. Soma-se a isso mais dois fatores cruciais:
1) Muitos usam e abusam das mais diversas drogas lícitas e ilícitas, o que ajuda a aumentar a confusão mental que propicia a delinqüência. Não é difícil de identificar bêbados e entorpecidos entre os brigões e temperamentais;
2) Faz parte da natureza (vegetal e animal, racional e irracional) o seguimento simplista. Isto é, adotar, sem sombra de dúvidas, o caminho mais fácil a seguir. E entre o ponderado e o prático, logicamente que o segundo será adotado, pois ele já vem digerido, com um estereótipo formado por ímpetos que não necessitam de um raciocínio aprofundado e questionador. Formar uma personalidade autêntica e coerente é mais complexo e requer tempo, estudo e trabalho que um mentecapto normalmente não quer ter.
CONSEQUÊNCIAS:
Se esses garotos de “inteligência avançada” brigassem entre si como um “clube da luta” fechado até matarem-se sem nenhum tipo de incomodo, seria algo até benevolente, pois eles próprios levariam a cabo o trabalho de acabarem com a violência vigente. Contudo, eles são inconseqüentes e não medem esforços em proliferar a ignorância além de seus limites. Como esses reflexos juvenis marginais são extrapolações da problemática personalidade conflitante que carece de atenção, sempre serão dispostos em público. Dai, estarão freqüentemente a um passo do envolvimento de terceiros, quaisquer que sejam, desde o trabalhador que tem o azar de estar prestando serviço naquele local no momento da ocorrência ao simples transeunte. E dentre estas pessoas de boa fé, que por ventura se vêem na desagradável situação, podem estar eu, você ou qualquer conhecido e/ou parente nosso. É inegável que a delinqüência acarreta um estigma que será empregado sobre qualquer pessoa que, mesmo sem querer, pode ser enquadrado por leigos no tratado (entende-se como praticamente, senão toda, mas a maioria da população) como simpatizante, por estar portando um vestuário, artefato ou disco equivalente ao usados pelos visados. A estigmatização é enormemente difundida pela mídia que detrata sem piedade e de maneira generalizada o rockeiro, principalmente o que cultua o chamado rock pesado. Os bajuladores ganham a vida vendendo polêmica, mesmo que essa seja fundamentada em casos isolados e não levam em conta que esses tipos de barbáries acontecem também nos bailes funks, nos estádios de futebol, no pagode de farofeiros, nos grupos de “pitbulls” que praticam artes marciais ou musculação e em outros tipos de castas. Lembrem-se de que o preconceito está atuante em todos os meios de nossa sociedade, mas o rockeiro sempre será retratado como o vilão da história. Outro desconcertante fator existente é o descrédito que algumas bandas podem ganhar pela presença desses extraordinários em seu público. O exemplo mais clássico dessa injustiça vem dos criativos Garotos Podres que até hoje sofrem as conseqüências da errônea infâmia de cativarem um público hostil. Não se sabe até quando eles ficarão sem patrocínios e contratos. Isso também ocorre com outras bandas de punk rock, black metal, metal extremo e afins, e há de perdurar enquanto houver esse mal entendido.
A SOLUÇÃO:
Por incrível que pareça, este câncer urbano possui um remédio, mas sua cura não se faz da noite para o dia, pois é imprescindível o culto a uma problemática trindade: conscientização, inteligência e cultura. Problemática, esta trinca por exigir um trajeto tortuoso por anos de suadouro. Como foi deixado claro anteriormente, é mais fácil seguir o caminho com pavimentação já formada a construir o próprio legado. A solução demanda que gangues de idiotas que usam o visual punk, passem a encontrar-se não para se drogarem ou brigarem, mas para estudarem a anarco-sindicalismo, o conteúdo das letras do The Clash, as idéias de Bakunin e desenvolverem um colóquio que apresente alternativas para os diversos entraves do progresso humano. Que headbangers se juntem não para beberem e praticarem o sexismo e o machismo, mas para refletirem a filosofia de King Diamond, o virtuosismo lírico de Yngwie Malmsteen e a união do movimento crossover. Que hippies em vez de ficarem vegetando pelas praças com seus micróbios, passem a ler sobre a sociedade alternativa de Proudhon e a praticarem o amor livre com a segurança dos preservativos. Que góticos parem de chorar e lamentar-se das amarguras do mundo e passem a pensar sobre a poesia de Ian Curtis em seu aspecto mais humano. Que skinheads não pratiquem mais atrocidades e xenofobia, passando a entender que se o nazismo vencesse a segunda guerra, nós latinos seríamos os exterminados depois dos judeus e dos negros.
Em suma, não que para se escutar rock é preciso ser um chato intelectual fundamentalista, mas cabe dizer que enquanto os bíceps substituírem os cérebros, o rockeiro ficará infame perante todos que engolirem as opiniões formadas e deturpadas, envergonhando os pensantes que estão sujeitos a isso sem o mínimo de merecimento. Desde o início da história do rock and roll que este estilo em todas as suas vertentes se caracteriza como música de contestação, mas isso não significa que a coisa tenha de ser exposta sem raciocínio com todo seu ódio de revolta interpretado ao pé da letra. Faz-se necessário que haja um fundamento filosófico que proporcione um determinado conhecimento, mesmo que minimizado já é válido e crucial, para que finalmente exista inteligência, respeito e dignidade no meio.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Front Zine 2

Neste “Front Zine”, Fábio Prestes expôs nossa influência de cibercultura.  Reproduzo abaixo o texto de minha autoria por estar ilegível na foto do trabalho.  Reparem que do número 1 pra este segundo, a diagramação já sofreu uma significatriva mudança.  Lembrem-se que o texto dava uma informação que na época (ano de 1996) era novidade.

 

Já encontra-se em lojas manauaras “Plugado”, o disco de retorno do Camisa de Vênus.  Retorno este que já havia acontecido a alguns anos atrás, mas somente para apresentações ao vivo, como mostra este registro feito em novembro do ano passado, que traz as tradicionais “Sílvia”, “Só o Fim”, “Eu Não Matei Joana D’arc”, “Pastor João e a Igreja Invisível”, outras mais do Camisa e muito rock’n roll dos anos 50.  A formação da banda é a mesma com a inclusão de Carlos Alberto Calazans nos teclados (o mesmo que tocava contrabaixo na “Envergadura Moral”, banda que acompanhava Raulzito).  Vale a pena conferir.


domingo, 19 de setembro de 2010

Aytas

O poema a seguir foi uma das piores coisas que eu já escrevi.  Era pra ser a letra de uma balada.  Por isso que se trata de uma poesia totalmente piegas.  Difícil se ver uma balada com uma letra inteligente.  Se por acaso eu for escrever outra, passarei mais tempo trabalhando pra que saia algo diferente do paradigma.



Aytas você
partiu meu coração.
Aytas você
me deixou na mão.
O brilhar dos teus olhos
atrás dessas lentes,
ganhou os meus votos,
deixou-me doente.

Aytas você
não pode me deixar.
Aytas com você
eu quero casar.
As curvas do teu corpo
me deixaram louco.
Tua boca carnuda.
Te desejo nua.

Aytas você
só existe pra mim.
Aytas você
não pode mais fugir.
Carinho como o meu
não vais encontrar.
Ninguém mais como eu
pode te amar.

sábado, 18 de setembro de 2010

Depoimento Para o GRAÚNA


O texto a seguir é um depoimento meu sobre um evento realizado pelo Coletivo Artístico do GRAÚNA (Grupo Amazônico União Naturista).  O GRAÙNA é um dos 6 grupos que participo.  Seu site está entre os recomendados neste blog e logo em breve eu estarei postando fotos deste evento que tive o orgulho de participar.
Uma pessoa me disse que o depoimento é um texto exagerado, outra me falou ser um ótimo escrito.  O importante é que consegui expor meus sentimentos sobre a performance citada.



A prática do naturismo urbano a céu aberto é de uma auto afirmação da beleza artística latente no corpo humano que extrapola os limites da natureza e leva até os têxteis a quebra desse paradigma pudico que ainda impera no moralismo de nossa sociedade machista. Com a performance na abertura da exposição “Nuances” com o coletivo Graúna, tivemos o prazer dessa prática poética e romântica onde o expressionismo cala qualquer tentativa de censura e repressão. As fotos e imagens registradas estão eternizadas para lembrança e recordações de que há uma determinada classe artística underground amazonense, e cidadã do mundo, que insiste em manter queimando essa chama tão necessária para a emancipação criativa e lírica da interação entre o homem e a tão machucada mãe Gaia.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Agonia


O conto a seguir tem uma curiosidade sinistra.  Tive a idéia principal do romance, da flauta como arma e do suicídio através de um sonho.  Após estudar alguns detalhes complementares, acabei formatando a prosa final que depois passei para João Vicente desenhar e transformar para história em quadrinhos.  A história foi feita e publicada no fanzine “Franca Zona” n° 03 (assim que conseguir uma cópia da quadrinização, postarei aqui).  A HQ recebeu diversos elogios por seu roteiro lírico, inclusive elogios de outros estados.  Algum tempo depois, um conhecido que nunca tinha visto o fanzine disse-me que já conhecia a história.  Estranhei, mas ele insistiu e afirmou que se tratava da história da criação do referido instrumento musical.  Tratei de pesquisar e fiquei abismado em ver que a lenda da origem da flauta tem exatamente os mesmos elementos principais da história que me surgiram no sonho.  Fiquei indignado e não tenho mais o carisma que tinha antes pelo escrito.




Os gafanhotos roçavam suas longas patas, levando o trololó para a audição de todos, como anúncio de início.
Havia chegado a hora da Festa Anual da Floresta de Diamantes começar.
Os gnomos das redondezas apressavam o comitê de boas vindas.  Fadas flutuavam por entre os arbustos, seguidas pelos sacis que espalhavam o odor de fumo queimado por seus cachimbos.  Pirilampos iluminavam o caminho, ajudados pela azulada luz da lua cheia.  Anões, víboras, duendes e chacais vieram das montanhas mais distantes compartilhar a alegria de mais uma Festa da Floresta de Diamantes.
Todas as entidades se dirigiam ao coração da floresta, ignorando suas diferenças místicas para se unirem em um só clã de felicidade.
Batendo com muita habilidade as suas longas asas coloridas e deixando um rastro de poeira fosforescente, uma fada atrasada sorria ao saber que não era longa a distância até o seu destino.  Apesar da pressa e da grande ansiedade de provar a festa, a fada parou por um momento ao ouvir uma solitária melodia soprada de uma flauta, que deteve sua atenção por vir em direção contrária à festa.
Olhando ao redor, procurando a origem do encantador som, a fada percebera um gnomo encostado em um cogumelo cor de rosa, com as pernas cruzadas tocando uma trabalhada flauta artesanal.  Era um gnomo de pele verde (logo, era de origem da própria Floresta de Diamantes).
- Porquê não está na festa? – pensou a fada, que aos poucos foi sentindo uma certa angústia na tonalidade da melodia.  Esquecendo seus interesses anteriores com relação à festa, aproximou-se em frente ao sombrio músico.
Este, surpreso, parou de tocar sua flauta ao perceber a presença da bela admiradora que possuía a pele e os olhos brancos, cabelos lisos e dourados cobrindo parte de seus seios que tentavam fugir dos decotes do transparente vestido de teia de aranha.  Seu corpo era escultural, seu rosto era de um anjo imaculado e suas asas coloridas e transparentes.
A fada notara, além de surpresa, uma grande melancolia nos olhos do gnomo, mas sua ingenuidade causada por uma paixão momentânea não lhe permitira um estudo crítico sobre o estado emocional do gnomo.
- Sou a fada Pym.  E você?
- Sou Tot, e mentiria se escondesse minha perplexidade rente sua beleza.  Mas com licença, preciso me ausentar. – falou o gnomo sem mudar suas expressões nos olhos.
E antes que ele se levantasse, Pym, com um tom de perda perguntou:
- Não vais à festa?
- Não devo. – disse Tot, antes de sumir em uma chuva de estrelas azuis.
Pym não conseguira entender o motivo de tanta tristeza e a ausência de Tot na festa.  Mas se lembrou que poderia se informar sobre o gnomo com o sábio dos mares.  Ela ouvira falar que ele sabe tudo sobre todos.
Dizem que uma fada tem o dom de se apaixonar por um ser fazendo com que este se apaixone por ela instantaneamente.  Mas isso pode ocorrer também com outros sentimentos fortes, assim como o ódio ou a depressão.  Pym pela primeira vez em sua existência sentira isso.
Com suas asas batendo como nunca, Pym chegou em poucos minutos à festa, que já se encaminhava para a cerimônia de encerramento.
- Onde se encontra o sábio dos mares? – perguntou Pym, ao entrar na clareira em festa, a um anão dos Alpes.  Este, por um momento, só fez voltar o seu olhar para um ancião com o corpo coberto de escamas cinzas, que empunhava um tridente prateado maior do que seu próprio corpo.
Pym sem agradecer o favor prestado pelo anão, dirigiu-se como hipnotizada em direção ao ser písceo e antes que este notasse a chegada repentina da fada, Pym precipitou-se.  Com curiosidade interrogou-o:
- Oh, grande sábio dos mares.  Saberás tu o motivo pelo qual se encontra deprimido o gnomo Tot, por quem me apaixonei?
O sábio olhou vagarosamente para o rosto de Pym e com uma voz grave e rouca, falou à questionadora:
- Por ser uma fada que ama alguém, este alguém também ama você.  Mas como não é isto que deseja saber, afirmo que não é simples depressão que atinge o gnomo Tot.  E sim, um tipo de feitiço criado há tempos por uma solitária bruxa do Pântano do Sul.  Numa espécie de espírito que entra em entidades como nós, nos causando um eterno estado de angústia que só acabará com a morte solitária do enfermo.  Este espírito do mal abandonará o corpo morto da entidade para encarnar em outra vítima de qualquer parte de nosso planeta.
Com mais curiosidade ainda, a fada perguntou:
- E haverá uma cura para este mal? Uma maneira de matar este espírito?
- A maneira única que se tem conhecimento para a eliminação total deste mal, seria o enfermo assassinar com as próprias mãos a pessoa mais amada de sua vida.  Assim, ele estaria matando sua própria doença e eliminando esse mal de uma vez por todas.  Por isso aconselho você a afastar-se de Tot, pois todos os casos que conheci do Espírito do Mal, acabaram em morte solitária do enfermo, já que este não pode ter relacionamento algum para evitar o amor, e assim, evitar tragédias.
Ao terminar de ouvir tudo, a fada Pym abaixou sua cabeça e desapareceu da festa para chorar suas lágrimas no fundo de alguma caverna escura.
Pym entendera então, o motivo de Tot privar-se de seus relacionamentos, mas sabia que enquanto amasse o gnomo, este por sua vez, amaria ela também.
Dias se passaram e Pym agora voava calmamente pela Floresta de Diamantes, carregando consigo o estigma moral da agonia de um romance proibido e sem chances de se desfazer.
Ao passar certo momento por um gigantesco carvalho, Pym ouviu um longínquo som de flauta que reconheceu imediatamente como a flauta de Tot.
Nervosa, a fada olhou ao seu redor como se estivesse faminta, procurando seu alimento perdido.  Ao perceber que a música continuava e que não se originava de nenhuma direção, olhou instintivamente para cima e enxergou seu amado no mais alto dos galhos, soprando sua flauta, olhando para as estrelas com seu rosto encharcado de lágrimas.
Pym sentou-se nas raízes expostas do carvalho, fitando seus olhos no cinzento horizonte e deixou suas lágrimas escorrerem no ritmo desanimado da melodia expressada pela flauta artesanal.
Tot estava tão influenciado por seus sentimentos negativos que não percebeu a presença da fada perecedoura e, com certeza, se tivesse percebido, teria desaparecido no mesmo instante para esconder o choro desprezado pela felicidade.
Desencontrados apenas por metros de distância, ali permaneceram durante horas e mais horas padecendo por uma agonia atormentadora sem o mínimo de pudor que afligia a moral e a decência sentimental de ambos os sofredores que, apesar de perfeitos e apaixonados, não poderiam ser felizes juntos ou até mesmo separados, pois Tot Carregava dentro de si um mal criado pelo ódio ou talvez pelo desprezo, ou talvez por impotência e quem sabe, até mesmo pelo próprio amor.
Depois de muito se molhar com as próprias lágrimas, Pym não agüentava mais a pena que estava pagando, levantou seu rosto olhando a flauta cantante e gritou para que seu flautista pudesse escutar:
- Não sei o que fazer, mas sei que sofrerá mesmo se me tiver ao seu lado... – e entre soluços e gemidos, continuou - ...Posso subir até aí e beijar teus lábios?
Tot parou de tocar e abaixou a sua cabeça para encontrar o olhar entristecido da fada que ansiosa, esperava uma resposta.
Ainda com o rosto encharcado, Tot não hesitou em segurar firmemente sua flauta com as duas mãos e enfiar em seu tórax o objeto fino e comprido, que não encontrou dificuldade de nascer nas costas do gnomo, com restos de um coração dilacerado e muito sangue escorrendo do bocal do instrumento, que se tornara uma arma para a autodestruição.  Tudo aconteceu em segundos muito preciosos, e apesar da velocidade quase impossível alcançada pelas asas da fada, esta só conseguiu aparar o corpo do gnomo, que já obedecia a lei gravitacional.  Sem tirar as mãos ao redor da flauta que atravessava seu corpo, Tot deixou-se beijar pela boca desesperada de Pym que agora estava com gosto de sangue e lágrimas.
Após o primeiro e último beijo, os olhos de Tot se fecharam e seu corpo amoleceu, virando pó que, levado pelo forte vento, sumiu entre as nuvens cinzas que descarregavam trovões que não eram fortes o suficiente para abafar o grito alto, agudo e histérico lançado pela fada através do céu negro da Floresta de Diamantes.
Pym desesperada de ira e inconformação, gritava empunhando a flauta ensanguentada que era banhada neste instante pela forte chuva que desabara no momento.
Um ano se passou e lá estavam todos reunidos na alegria de mais uma Festa Anual da Floresta de Diamantes.  Gnomos, duendes, corujas, fadas, feiticeiras e todos os outros brincavam e se divertiam ao som das harpas eclesiásticas dos anjos.
Não muito longe dali, duas bruxas atrasadas, voavam lado a lado em suas vassouras mágicas em direção ao coração da floresta.  Ao sobrevoarem o carvalho gigante, ouviram uma triste música soprada pela flauta de uma fada sentada no mais alto galho.
- Aquela não é a fada Pym?  Faz muito tempo que não a vejo – murmurou uma bruxa a outra.
- Sim.  É ela mesma.
- Por que não vai à festa?
- Ouvi dizer que ela está com o espírito do mal.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Em Nome Da Vida

A história em quadrinhos a seguir era um poema que foi ilustrado por João Castilho e virou essa belíssima HQ publicada no fanzine “Franca Zona” n° 06 (em breve falarei mais sobre esse exemplar do Franca Zona).
João Castilho vale um parágrafo longo.  A imagem frágil de um ancião com cabelos grisalhos compridos e barba também grisalha comprida, esconde uma figura única do underground artístico brasileiro com imenso acúmulo de experiência de vida.  Num dos Encontros de Quadrinheiros, um jovem garoto perguntou quem, entre os demais presentes no salão, eram do Clube.  O garoto ficou abismado em ver citada a figura idosa de nosso enigmático desenhista no meio de tantos outros jovens garotos.  Chegou a insistir no questionamento de que “aquele velhinho” fazia mesmo parte do grupo.  Rimos bastante.  Junkie categórico, Castilho me deu um susto gigantesco num episódio notívago que eu narrarei em uma das séries de crônicas autobiográficas que logo começarei a postar por aqui.  Criador do símbolo do Clube Dos Quadrinheiros de Manaus (o círculo com o urubu lendo gibi).  Reza a lenda que o desenhista freelancer nômade, é na verdade um gnomo que roda o Brasil (e quem sabe, o mundo?) deixando como rastro a sua arte em seu traço peculiar.  Chegou a ser candidato a Prefeito de Mogi das Cruzes, interior de São Paulo donde se originou esse amigo carismático.  Dávamos gargalhadas quando ele nos mostrava as fotos em preto e branco de sua campanha, onde o mesmo posava de terno e gravata, com barba e cabelos compridos pretos, fazendo posições hilárias frente a prédios públicos.  Deixou-nos muitas saudades e grande interrogação que indaga se ainda vive e se ainda volta por aqui.
Amamos você, Castilho.  Onde quer que esteja.
 



quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Kid Vinil Na Saraiva Do Manauara Shopping


Mais uma resenha e entrevista realizada para o Vertical Classic Rock.  Espero em breve estar postando essas entrevistas por aqui.


Foto: Site da Livraria Saraiva


Entrevistar uma lenda viva do rock que já escreveu dezenas de artigos, alguns livros sobre a história do rock, tem um dos melhores blogs da Internet e está sempre antenado no circuito mundial do ritmo mais popular do mundo, é uma tarefa delicada. Uma pergunta mal formulada ou uma informação sem embasamento pode ser motivo de gafe quando dita frente a um arquivo vivo.
Celebridade à parte, Kid Vinil nos recebeu muito bem. Esbanjou carisma e conversou por cerca de uma hora em sua sessão de autógrafos no lançamento de seu livro “Almanaque Do Rock”, pela Ediouro, realizado no Espaço Cultural da Livraria Saraiva no Shopping Manauara no dia 27 de agosto.
Começou falando ao público, por cerca de 20 minutos, todo o processo de criação do livro contando várias histórias de bastidores. Em seguida partiu pra sessão de autógrafos. Formou-se a fila e esperamos ela terminar pra poder abordá-lo (já havíamos acertado com ele antes que faríamos a entrevista após os autógrafos).
Chegada nossa vez, começamos o bate papo. Foram dezesseis perguntas que abordavam o início da carreira de radialista e músico até suas mais recentes novidades e dicas de bandas promissoras, sem deixar de passar pelos aspectos pessoais que movem essa lenda chamada Kid Vinil. Cada resposta era uma história contada. Lembranças de um passado marcante, saudosismos de momentos únicos e gargalhadas aprovando a satisfação na entrevista.
Indicamos alguns sebos pro ávido colecionador de vinil, passamos CDs de bandas locais e pegamos os devidos autógrafos.
No dia seguinte a lenda fez discotecagem na casa noturna “Fellici” e ainda tocou num show ao vivo com a banda de apoio “Oficial 80”. Chegamos a conversar por uns 10 minutos antes do show e a fizemos algumas imagens. Lembrando que não é a primeira vez que ele tocou em Manaus.
Obrigado pela “aula” Kid. Tomara que outros livros venham, de preferência, sempre com sua presença.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Pollyanna

O poema a seguir merece uma pequena observação.  Foi publicado no fanzine “Quarta Literária” n° 5, em outubro de 2002.  Feito na cegueira de uma paixão, não levei em consideração a ausência de rima nos últimos versos.  Quando percebi isso, optei por deixar assim em ver como uma pequena quebra anárquica nos paradigmas literários.  Um acadêmico conservador iria desprezar o escrito como quem despreza um doce estragado.  Contudo, a garota, que agora me interessa tanto como uma bicicleta interessa para um peixe, adorou a poesia na época.

Polly como pólen
das flores que constroem.
Anna como anda
tão perfeita dama.
Polly está polida
sua pele alva viva.
Anna acende a flama,
com olhar me chama.
Polly possuída
de desejo a poetiza.
Anna em sua cama
deita, rola e ama.
Polly poliandria
só comigo deixaria.
Anna com sua gama
flerta-me com gana.
Polly policromia
multicores de vida.
Anna como emana
emancipa teu drama.
Polly com postura
de eterna formosura.
Anna que conquista
porventura minha vista.
Polly positiva
acaba com a negativa.
Anna analista
precisão de alquimista.
Polly postulada
sempre será amada.
Polly como pode
separar de Anna?
Anna explica a Polly
que alguém lhe quer.
Polly, Mário e Anna.
Pollyanna mulher.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Phodas-C 0,5

“Phodas-C” foi sem dúvida um dos fanzines mais polêmicos já manufaturados na cidade.  O nome foi em homenagem ao primeiro disco de Léo Jaime lançado em 1984.  Era produzido por mim e por Adelino Lobato.  Eu tratava das duas capas, do editorial na primeira página e da última página.  Adelino era responsável por todo o miolo.
O objetivo do fanzine era fazer dele nossa válvula de escape e ali colocar todos nossos medos, preconceitos, ódios, incoerências e tudo mais que não presta de sentimentos e qualidades que habitam o interior do ser.  A idéia era fazer sempre cada número pior que o antecessor e assim expurgar nossas ruindades que teem de ser jogadas fora.  O fanzine alcançou seu objetivo.  Gerou raiva do artista multi mídia, Mayr Mendes que chegou a me dizer que não podíamos fazer aquilo e que se tratava uma grosseria de mal gosto disfarçada de arte.  Gerou raiva da professora da UFAM Conceição Derzi, que numa reunião dos Quadrinheiros discorreu uma retórica contra o produto alegando que a Universidade jamais apoiaria aquele tipo de impresso.  Imediatamente pedi dela o discurso por escrito pra publicar no fanzine, mas infelizmente não fui atendido.
O fanzine era totalmente anárquico.  Não tinha periodicidade nem numeração coerente e chegou a influenciar a criação do “V.T.N.C.” do desenhista e quadrinhista Arthur Araújo (vulgo Farrapo).
Não lembro de nenhum outro fanzine em Manaus que tenha vindo com brinde.  Pois o “Phodas-C” teve brindes em quatro exemplares dos seis lançados.  Falarei dos brindes quando postar os fazines que eles acompanhavam, por merecer uma história à parte.
Chegou um certo ponto onde tivemos de acabar com o fanzine porque haviam pessoas que estavam se incomodando muito e a coisa estava começando a ficar perigosa.
As contra capas eram colagens aleatórias com alguma frase chocante de celebridades ou anônimos.  Nas histórias em quadrinhos do miolo eu sempre dizia para o Adelino não caprichar muito e relaxar quanto à arte final.  Podia deixar tosco mesmo pra manter a “filosofia”.
O “número último” (é assim mesmo a numeração deste), que marcou o “assassinato” do zine por seus próprios autores, é tão peculiar que terei de fazer uma resenha apresentando ele (vocês entenderão o porque), mas enquanto isso não acontece, fiquem aqui com a capa e contra capa do número 0,5.


domingo, 12 de setembro de 2010

Front Zine 1

“Front Zine” era uma página semanal, publicada aos sábados, no extinto “Jornal do Norte” em 1996 e produzida pelo Clube dos Quadrinheiros de Manaus, mais precisamente pelos membros: Daniel Dante, Fábio Prestes, João Vicente, Bruno Cavalcante e este que vos escreve.  Curiosamente Vicente tinha que assinar o trabalho com o pseudônimo de “Teckiller” por ser funcionário do jornal “A Crítica” e Bruno Cavalcante, que passou a fazer parte da equipe somente a partir do número 12, como sempre muito excêntrico, assinava com “B%C2”.  O jornal acabou em pouco tempo por tratar-se de uma grande “lavagem de dinheiro” de um certo Governador que tínhamos e ainda hoje mama nas tetas públicas.
A diagramação e a arte central da página eram feitas por Fábio Prestes.  Os demais cuidavam do trabalho de pesquisa dos textos e da contribuição com as fotos e ilustrações.  Primeira empreitada profissional do Clube que rendeu uns trocados pra cada membro, a folha era influenciada por parapsicologia, mangá, cibercultura, ultra violência e punk rock.
Irei postar as páginas, uma a uma com o passar do tempo e reproduzir os textos de minha autoria, quando estiverem ilegíveis, pra facilitar a leitura.  Como se tratava de um trabalho jornalístico que abordava cinema, quadrinhos, fanzines, música e tudo a respeito com cultura alternativa, os textos anunciavam novidades daquela época.
Temos 13 desses trabalhos em forma de quadros que estão disponíveis pra exposição itinerante e até já foram expostos em alguns espaços culturais.
O Front Zine era chamado de “inovação gráfica” pela maioria e “lixo visual” por alguns funcionários conservadores do jornal.  Vocês entenderão o porque, quando verem a evolução do trabalho a cada número.  Este número 1 é o mais “comportado”.