Auto biografia artística virtual. Registros de eventos, resenhas, desenhos, crônicas, contos, poesia marginal e histórias vividas. Tudo autoral. Quando não, os créditos serão dados.

Qualquer semelhança com a realidade é verdade mesmo.

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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Scavengers Reign (Planeta dos Abutres) - Resenha


             Incrível a capacidade de desdém que a indústria do entretenimento exerce sobre a arte, quando esta não supera as expectativas de venda e/ou audiência. O descaso é mais comum do que se imagina e é aplicado em filmes, séries, animes, músicas, teatro etc. Mas aqui, o destaque do absurdo cabe ao que a HBO Max fez, cancelando a mini série em animação adulta “Scavengers Reign” de 2023, que no Brasil ganhou a tradução de “Planeta dos Abutres”. Trata-se de uma ótima série animada de ficção científica que conseguiu a proeza de 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e elogios unânimes entre crítica e público.

       Criada pelos roteiristas Joseph Bennett (nada a ver com o homônimo quadrinhista paraense reacionário) e Charles Huettner (ambos iniciantes ainda com poucos feitos em seus currículos), com direção de Benjy Brooke, Scavengers Reign acompanha a saga de alguns cosmonautas que acabam perdidos em um planeta estranho e selvagem de exótica fauna e flora, onde a busca por sobrevivência se prende aos poucos recursos tecnológicos da nave caída em contrastes constantes com a exuberante natureza local. A história não traz quase nada de violência e sangue, focando exclusivamente no drama do grupo, que se encontra em situação inusitada, devido aos recursos esgotando-se frente à hostilidade deste mundo encantador e completamente bucólico. Desta forma, apesar de ser dirigida a um público adulto, a obra consegue cativar o telespectador sem recorrer a apelos abusivos, deixando sempre o flerte com a surpresa do desconhecido inesperado a cada minuto da animação numa dinâmica de cinematografia espetacular. O traço é limpo, suave, realista e bem acabado com cores vivas contrastando equilibradamente com as cores neutras e fotografia paradisíaca. Cabe o detalhe de que alguns dubladores convidados são celebridades como Wunmi Mosaku (Loki, His House, Lovecraft Country etc.), Alia Shawkat (The Old Man, Duck Butter, Arrested Development, The Final Girls etc.), a bela Sunita Mani (Glow, Death of a Unicorn, Spirited etc.), Bob Stephenson (The Big Bang Theory, Ultrasound, Lying dentre muito mais). Ápices de criatividade podem-se notar na fisiologia da fauna alienígena, que aumentam a curiosidade plástica na animação. 

De forma geral, Scavengers Reign com apenas uma temporada composta por 12 episódios com uma média de 24 minutos cada, já é uma obra prima. Mesmo tendo a produção de uma segunda temporada cancelada inexplicavelmente pela HBO Max, apesar da deixa para continuidade no último episódio, vale assistir a obra que também se encontra na Netflix, Prime Video e Apple TV. Não deixe de conferir!



terça-feira, 26 de agosto de 2025

Ninguém Vai Te Salvar - Resenha do filme

 

Como pode um filme longa metragem não ter diálogos, quase não ter coadjuvantes, ter a maioria de suas cenas em apenas uma locação e mesmo assim ainda ser um filme extremamente cativante, prendendo o seu espectador do começo ao fim, numa tensão cheia de deixas para plot twist? Pois bem, este filme é No One Will Save You (Ninguém Vai Te Salvar” no Brasil), produção hollywoodiana lançada no ano de 2023 escrita e dirigida por Brian Duffield e estrelada por Kaitlyn Dever. Ficção científica que aborda o suspense da abdução com um pequeno toque de terror e de drama familiar, a película entrega muito mais do que promete, visto provocar inquietação com o seu final aberto para especulações do público e de produtores para continuações.

O “quase não ter coadjuvantes” no parágrafo anterior, não é exagero! Durante os seus 93 minutos de execução, No One Will Save You foca na personagem principal Brynn, que mora sozinha em uma enorme casa de bairro bucólico de cidade pequena do interior norte americano. Somente quando a personagem se desloca até um estabelecimento na comunidade, é que temos coadjuvantes em cena, ainda assim, de participações com pouca plasticidade e que somam apenas à história particular da protagonista, sem efeitos significativos ao elemento ficcional da trama. História particular esta, que explica o isolamento de Brynn, pois fica claro na reação dos citados coadjuvantes e nas reminiscências inseridas durante o decorrer do filme, que há sim, um mal entendido, com o falecimento de sua melhor amiga, Maude, que tem culpa do óbito aferida a si pela família desta.

Já a ausência de diálogos é um elemento de forte tempero no suspense do roteiro. Não é um filme mudo! Os sons ambientes, inserções musicais pontuais, onomatopeias, gemidos, barulhos diversos, estão todos lá, mas dosados equilibradamente com o silêncio, que aqui se faz muito notável numa presença densa que antecipa muito bem todo o terror vivido por Brynn a cada cena. Pode-se até arriscar na afirmação de que esta característica somou grande parte da identidade estética deste filme, já que isto é muito bem explorado pela direção de arte da obra.

A interpretação de Kaitlyn Dever vale observação. Sua experiência como atriz jovem se resume a séries de televisão e papéis coadjuvantes em filmes de pouca projeção. Porém sua entrega para viver a personagem em seu drama, não deixa nada a desejar para grandes estrelas de Hollywood. O fato dela ser enquadrada em quase todas as cenas, sem textos, com foco exclusivamente em sua atuação, lhe exigiu dedicação numa encarnação convincente levando o produto final a ser indicado em vários prêmios.

Sem dar muitos spoilers, em concordância com as sinopses existentes online, Brynn consegue resistir bem a invasão de sua casa, provocando até baixa entre os alienígenas, mas estes além de suas tecnologias e suas visitas surpresas, também possuem poderes telecinéticos, o que torna o embate bem mais difícil. Para piorar mais ainda, o problema não é uma situação isolada, como revelado no final do longa.

De forma funcional, a sutileza é um detalhe importante em No One Will Save You, mostrando porque o silêncio da solidão pode ser tão aterrorizante ao ponto de tirar o sono e incentivar a acender as luzes. Vale muito assistir!


sábado, 23 de agosto de 2025

Resenha de O Desejo Eterno

      Abaixo reproduzo uma resenha que encontrei na internet de meu segundo livro, o comic book O Desejo Eterno. A qualidade do texto me impressionou ao ponto de eu reproduzí-lo aqui. Uma pena que não colocaram os créditos de quem escreveu a resenha que originalmente está postada neste link (https://proximolivro.net/o-desejo-eterno-mario-orestes-silva/262415).


     O desejo eterno não se limita a um título; é uma viagem pela densidade do ser humano, pelas intricadas teias do amor, desejo e a busca interminável por conexão. Mário Orestes Silva, um autor que se apresenta com a força de um trovão e a sutileza de uma brisa leve, nos transporta para um universo em que os sentimentos não são apenas descritos, mas vividos em sua plenitude.
    Neste livro, a proposta é mais profunda que as meras palavras impressas. Cada uma das 64 páginas é um convite para refletir sobre a natureza do desejo, sempre insinuando que nosso anseio por afeto ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço. Silva conjuga sua formação e experiências de vida em uma narrativa que respira intensidade e paixão, mostrando que o desejo é, ao mesmo tempo, fonte de felicidade e dor. O autor, ao dissecar emoções humanas, entrega ao leitor não apenas uma estória, mas um pedaço de si - uma vulnerabilidade que instiga e provoca, como um ecosistema de ecos íntimos.
     É impossível não se deixar envolver por essa atmosfera. Os leitores sequer conseguem ignorar o seu próprio desejo, em suas diversas facetas, refletindo não apenas sobre o que se deseja, mas, principalmente, sobre o que se sente ao desejar. Comentários que surgem pela internet revelam a controvérsia: muitos se sentem tocados por esta obra quase poética, enquanto outros a criticam, apontando uma superficialidade que mal toca o profundo abismo do desejo humano. Aqui, no entanto, reside a beleza do livro - não há respostas fáceis, apenas reflexões que podem atormentar e povoar os sonhos.
     Ambiente e enredo se entrelaçam em uma dança hipnótica. O contexto contemporâneo que permeia o livro ressalta a incessante busca do sujeito moderno por significado em seus relacionamentos, uma crítica sutil à superficialidade das interações. O desejo eterno se transforma, então, em um grito por autenticidade em um mundo saturado de distrações: "Você realmente deseja conectar-se, ou suas interações são meras substituições para o que falta?".
     Silva nos faz questionar nossas próprias convicções. Ao final da leitura, muitos se sentem compelidos a reavaliar suas relações, o que foi, e o que ainda poderia ser. Leitores que dividiram suas opiniões trazem à tona um fenômeno crucial da obra: a capacidade de provocar sentimentos que, antes, eram apenas submersos em um mar de cotidianidades.
     Ao mergulhar em O desejo eterno, você não apenas percorre a história; você sente, vive, e até chora. É um chamado à reflexão sobre o que significa desejar. E essa é a verdadeira magia deste livro: ele não lhe fornece respostas, mas te força a buscar as suas próprias, acendendo uma centelha de curiosidade e um fervor de sentimentos que podem, de fato, mudar sua maneira de encarar o amor e a vida.
        Deixe que essa obra ressoe em seu ser! O que você tem a perder ao abrir-se para novas descobertas? O desejo, em sua essência, é um portal. E ao cruzá-lo, você poderá redescobrir a si mesmo de maneiras que nunca sonhou.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Só Garotos de Patti Smith é um tributo poético e romântico de quem domina as palavras

 

Muito antes de se tornar uma rock star e ícone punk da contra cultura de Nova York (e porque não dizer “do mundo”?), ela já era performancer, poetiza, escritora, artista plástica, desenhista, pensadora reflexiva e Mulher. Sim! Mulher com M maiúsculo, porque a carismática Patti Smith, nascida em 1946, cedo foi obrigada pelo destino a pular sua adolescência e tornar-se adulta, mediante a vida de uma família pobre que demandava ajuda à mãe, para cuidar de casa e um casal de irmãos mais novos. Boa parte dessa experiência dolorosa e enriquecedora, seguiu-se durante décadas e a acompanha até hoje em sua terceira idade, onde ela ainda continua se apresentando profissionalmente mundo à fora, conforme pode ser constatado em “Só Garotos”, autobiografia comovente desta artista completa, humilde e questionadora. Tudo descrito na primeira pessoa, sem ajuda de ghostwritter, com proficiência de quem está segura em seu ofício.

Ao contrário do que se possa imaginar, esta obra não esta específicamente focada em sua música. Nas páginas que senguem-se numa escrita natural de quem domina muito bem as palavras, tornando a leitura prazerosa e expectante, acompanha-se primordialmente as dores, os tropeços, acertos e felicidades de alguém muito bem vivida e com gosto da formatura de seu legado. O ápice desta obra é a explícita homenagem àquele que em vida foi seu companheiro e o grande amor de sua vida, o fotógrafo e também artista plástico/performático Robert Mapplethorpe, infelizmente falecido precocemente no final do ano de 1986 pela síndrome da imuno deficiência adquirida (AIDS). Não apenas homenagem, mas também registro histórico do trabalho deste ser humano cativante e do companherismo dedicado a Patti. Podemos até arriscar dizer que, se não fosse por ele, a madrinha do punk não seria quem é hoje, devido ao enorme incentivo, motivação e parceria que este dedicou à ela. Mais do que justo este tributo apresentado desde a capa do livro, pegando praticamente toda narrativa (mesmo no tempo em que ambos estiveram separados) até às fotos ilustrativas e às últimas páginas.

Evidente que ela fala de seus discos, de suas músicas, componentes da banda, ensaios e composições do primeiro e emblemático “Horses” lançado no longínquo 1975 até os esboços do que viria a ser o álbum de sua volta à atividade musical “Dream of Life”, lançado em 1988 (dois anos depois da morte de Mapplethorpe). Mas também se descreve suas poesias, suas fotos, seus desenhos, suas exposições e seu pensamento inquietante. Destaques que valem a atenção, estão em seu amor declarado à arte de Bob Dylan, sua morada (com Robert, evidentemente) temporária no famoso Chelsea Hotel, onde se envolveram ativamente com a prolífica cena cultural do entorno e a sua devoção ao movimento beatnik. Nomes como Jim Morrison, Andy Warhol, Janis Joplin, Jackson Pollock, Arthur Rimbaud, Allen Ginsberg, Jean Genet, William Burroughs, William Blake, Charles Baudelaire, Brian Jones e dezenas de outras celebridades passeiam coadjuvantemente por todo texto da brochura, tornando a composição muito bem frequentada.

Em seu leito de morte, Robert recebeu de Patti Smith a promessa, de que ela escreveria a história deles. “Só Garotos” cumpriu sua palavra e não há dúvidas de que, onde quer que ele esteja, Mapplethorpe se orgulhou do resultado final.

Editora Companhia das Letras; tradução de Alexandre Barbosa de Souza; 272 páginas; São Paulo; 2010.


quinta-feira, 24 de junho de 2021

A Sombra de Monalisa - Uma ópera rock

Os dilemas mais desconcertantes provocados pela paixão, em seus mais inesperados resultados, ainda assim parecem inócuos estacionários em comparação aos extremos alcançados pelo amor. Eis a questão que mais incomoda o existencialismo humano, na ópera rock manauense A Sombra de Monalisa, emanando inspirações que vão de Leonardo da Vinci a Carl Jung. Rafael Rebelo e Norcirio Queiroz são os pais da criatura que traz uma série de músicos convidados com seus talentos inquestionáveis em suas interpretações exponenciais. Tudo ambientado num requinte classudo, que chama atenção pelo expressionismo poético de um contexto quase gótico.
A Musa (Eva Basile) abre o espetáculo para apresentar a história de Monalisa. “A Escuridão” na perspectiva ambivalente toma conta do ambiente com introdução dos teclados de Breno Fragata (Moovee). Queison Alves (Alados) e Aline Fagan conduzem as falas enquanto o ótimo Leonardo Lima (Pacato Plutão) e o próprio Rafael Rebelo dividem os solos das guitarras. O estilo é de um rock pop com pitadas de alternativo/hard rock/emo/jazz fusion que delimita as músicas até o final da obra.

                    
A Musa então apresenta o coadjuvante principal, o Malandro, que terá seus princípios colocados em xeque pela força do amor.
Desejo em Conflito” vem com uma interpretação louvável de Clóvis Rodrigues (Platinados/Os Tucumanos) que encarna o próprio Malandro, como se fosse o mesmo. E a sensualidade da Musa dita o dilema.
Vinho Seco” exala pétalas de rosas com Queison e Clóvis dividindo os vocais e expressando a negação e a confusão que Monalisa proporcionou.
Três Natais” nas perspectivas do Malandro, de Ela, de Ele e da Sombra, tem uma forte marcação do contrabaixo de Luiz Roberto Góes (O Tronxo) em sua primeira parte. O peso não dura, porque em seu meado a canção relaxa num piano bem R&B e traz as vozes de Queison, Clóvis, Aline e Gabriele Lins. A cadência segue alternando entre peso e swing, culminando num solo dobrado com teclado e guitarra. Arranjos perfeitos!
A Musa entra no segundo ato, o arco de Ela. Monalisa está exposta em sua atitude egoísta em “Adeus Amor” e Aline assume belamente o microfone. Aqui os arranjos ganham um requinte a mais com um quarteto de cordas sublime formado por José Jonas Jr., Bárbara Soares, Alex Teixeira e Elieziel Lourenço dos Santos. Vale até citação a Cazuza.
Com sua sensualidade marcante a Musa introduz “O Abismo do Infinito”, que traz exatamente o mesmo time da canção passada, sendo agora uma balada de colapso. O Ele desespera na confusão causada pelo amor à Monalisa.


A Musa nos chama para “Sombria” que também tem a mesma equipe de musicistas, com o acréscimo do trompete de Marcelo Martins, que dá um toque caribenho na música.
Musa serve o ato final com a Sombra se projetando em “Ambivalente”. Sem o quarteto de cordas, mas com as vozes alternando entre Grabriele, Queison e Aline a fragmentação perpetua-se na fusão de dor e prazer. O acompanhamento perfeito do baterista Anastácio Jr. (O Tronxo/Platinados/Infâmia/Alaídenegão) completa o quadro que é coberto pelo abstracionismo das perspectivas de Monalisa.

A Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult) deve se orgulhar de ter contemplado o projeto A Sombra de Monalisa no Prêmio Manaus de Conexões Culturais – Lei Aldir Blanc. O pioneirismo foi muito bem representado numa ópera rock de muito bom gosto com temática reflexiva e um time de músicos extremamente competentes, que cumprem com excelência os seus papéis como pintores desta verdadeira obra prima, marcada na história da música de Manaus.
Veja a performance completa no link (https://www.youtube.com/watch?v=abHYEm19Wts).


terça-feira, 4 de maio de 2021

Renegados Pelo Sistema - Fim de Tudo

O principal objetivo de uma banda punk é transmitir sua mensagem, considerando que esta se empenha mais no primeiro nome do termo “punk rock”. Pois isso é o que fica evidenciado em “Fim de Tudo”, CD de estreia (sem considerar demos lançadas anteriormente) da banda manauense Renegados Pelo Sistema no ano de 2016, destilando ira e revolta subversiva.

O álbum abre com “Defunto Social” que traz em seus arranjos as marcantes notas da universal Marcha Fúnebre de Frédéric Chopin, evidentemente não creditado na ficha técnica. A segunda é “John da Fita” trazendo um riff que dá a impressão de ter sido ouvido em dezenas de bandas parecidas, mas que em nada compromete a levada hard core. Em seguida entra “Ronda Marginal” com a mesma temática das anteriores e que caracteriza o disco como um todo. Na terceira posição tem a faixa “Relação Perigosa” que é um pouco mais trabalhada nos arranjos. “Marginal Kaaos” prova que se a banda tivesse uma produção mais atenciosa, poderia facilmente se equiparar com outras grandes do estilo. Destaque para as guitarras e a presença de dois solos na música, sendo um na introdução. Na sequência “Papa F.D.P” ataca diretamente o poder maior do Vaticano, como já fica evidente no título. Ótima para ser tocada em igreja cristã. A sétima é “Creolina” que novamente transmite a ausência de uma produção mais refinada, principalmente nos vocais. A próxima é “Discórdia Social”, um hard core como o público gosta. Curto, direto e agressivo. Em nona posição está “Ódio Dessa Vida” que oferece uma boa trilha sonora para roda de pogo. A penúltima é a faixa título, perfeita para ilustrar todo o conteúdo do CD. Fechando a bolachinha está “Renegado”, que serve como cartão de visita por trazer referência à banda em seu título e uma letra diferente das demais, pela construção um pouco poética.
Renegados Pelo Sistema não é uma banda maravilhosa e o disco “Fim de Tudo” não é uma pérola do rock underground. A produção é tosca e poderia ser bem melhor nas mãos de um profissional. Contudo, os garotos são determinados, colocaram fotos e letras na arte gráfica interna do álbum, disponibilizaram o disco para download gratuito no Bandcamp e nota-se o esforço deles com seus instrumentos. Porém, cá entre nós, para uma banda que tem como intuito apenas difundir seus ideais punks, eles estão traçando o caminho ideal.
Longa vida aos Renegados Pelo Sistema!


domingo, 9 de agosto de 2020

A Última Flecha

 Desde 2016 que começaram a “pipocar” as graphic novels autorais na cidade de Manaus, sendo que algumas mostram qualidade de nível internacional, não devendo absolutamente nada para alguns grandes clássicos da nona arte produzidas neste formato mundo à fora. Pois bem, “A Última Flecha” é um destes exemplos, que apesar de suas falhas, nos traz o melhor do que é produzido de histórias em quadrinhos na capital amazonense.

Escrita brilhantemente por Emerson Medina (ex-membro do Clube dos Quadrinheiros de Manaus), a história é contada exatamente como melhor agrada o leitor, com poucos textos, personagens bem construídos e roteiro que mostra, sem delongas, a saga se arrastando através dos tempos. A questão temporal é realmente bem administrada no contexto da história, tornando a compreensão facilmente assimilável pelo leitor.

A trama gira em torno da vingança que é buscada por um indígena que teve sua tribo dizimada por saqueadores em busca de uma bebida que promove a longevidade. Busca esta que se arrasta entre passado e presente, justamente pela dádiva proporcionada na ingestão do sagrado elixir. O roteiro só não explica como uma das personagens traz ao presente, para o sintético ambiente de um quarto de hotel, uma clava utilizada no passado em plena selva. Provavelmente um outro objeto tenha servido como alusão a arma do passado, mas isso teria de ficar evidente, no último quadro da sequência, para evitar o questionamento.
Os desenhos são um show à parte. Com riqueza de detalhes, feitos por Rogério Romahs (ex-membro do Clube dos Quadrinheiros de Manaus), a fotografia cinematográfica mostra como este rapaz, que atua como roteirista dos estúdios MSP, seria um ótimo diretor de filmes. O traço suave na anatomia perfeita (não apenas humana, mas animal também) cativa qualquer público que se aventura na leitura da obra. Porém, mesmo em seu perfeccionismo, aqui o riscado de Romahs mostra alguns detalhes que poderiam ser melhorados. O mais notório é a ausência de onomatopeias na cena inicial do comic book. Uma sequência fantástica de genocídio em batalha com tiros, machadada e similares, não poderia ser silenciosa e tirou muito da dramaticidade demandada. Outras falhas que são evidentes no decorrer das páginas, está na brancura total dos céus amazônicos, absurdamente sem nenhum tipo de nuvens em todos os quadros que se ilustra o natural, mesmo nas diferentes temporalidades da história, e a silhueta totalmente vazia do que seria um automóvel em um dos quadrinhos. Estas observações certamente são creditadas a Jahn Cardoso (também ex-membro do Clube dos Quadrinheiros de Manaus) que assina como Design de Ambientes.

Estes detalhes observáveis não tiram, em nenhum momento, o brilhantismo de A Última Flecha que já figura como uma obra prima dentre todos os trabalhos lançados até agora, no âmbito das histórias em quadrinhos, feitas na cidade de Manaus. Não deixe de adquirir! É arte refinada e digna de premiação.
Editora Monomito; São Paulo; 2019; 56 páginas.


quarta-feira, 26 de junho de 2019

Mustaine - Memórias do Heavy Metal

Auto biografias em geral apresentam-se numa previsibilidade didática de um paradigma mercadológico até. Quando se abrem as primeiras páginas, já se sabe, mais ou menos, o que se encontrará em “Mustaine – Memórias do Heavy Metal” que David Scott Mustaine escreveu com o auxílio de Joe Layden. Uma autobiografia séria, sem perder o humor em algumas passagens, sincera e com uma leve sensação de ausência em algo.
Capa da motivadora autobiografia de Dave Mustaine
O leitor facilmente perceberá, não apenas a forte personalidade do líder do Megadeth, mas também sua força física e mental. A física foi se desenvolvendo naturalmente com o passar da idade, devido a infância pobre que sofreu com um pai autoritário, abusador e alcoólatra, e mais tarde, na prática de artes marciais, que complementou muito a disciplina que ajudaria o músico como guitarrista e mentor de uma das maiores bandas de heavy metal do mundo. Evidentemente que seria impossível falar da vida deste homem, sem falar de sua passagem pelo Metallica. Mesmo porque ele foi um dos fundadores deste mito do rock e, sabe tanto quanto os demais membros, como começou sua história. Vale ressaltar que, devido a este episódio, é praticamente obrigatória a leitura deste livro para os fãs do Metallica, visto se tratar da versão de Mustaine para sua passagem pela banda e o porque de muita mágoa envolvida em ambas as partes. Mágoa esta que foi bastante amenizada com o sucesso do Megadeth, mas que, sem dúvida nenhuma, deixou cicatrizes profundas. A maior delas, talvez seja as circunstâncias traumáticas em que ele foi deixado por James Hetfield na estação de trem, após ser demitido do Metallica, que estava em ascensão e deve muito disso a Mustaine. Além deste, outros tópicos atiçam a curiosidade, como por exemplo a constante mudança de formação do Megadeth, o processo de composição e gravação dos álbuns clássicos, a opção do biografado em decidir ser o vocalista de sua banda (acredite: ele não queria, e se isso acontecesse, talvez a história seria outra) e a recuperação do alcoolismo, das drogas e principalmente da lesão num pulso, sofrida num acidente, que quase lhe tirou a habilidade de tocar guitarra. A força mental está na perseverança de Dave em continuar com a banda e no apoio conseguido através de sua conversão ao cristianismo. Curiosamente a ausência mais sentida no livro é o seu envolvimento com o satanismo que, conforme o mesmo em algumas entrevistas, foi profundo e causou-lhe sérios problemas.
Dentre as dezenas de fotos, há aquelas que são simplesmente históricas.
Mágoas e previsibilidade à parte, “Mustaine – Memórias do Heavy Metal” é a narração de um belo exemplo de vida que demonstra força para superação a problemas cruciais na vida de qualquer pessoa comum.
Tradução de Marcelo Barbão; editora Benvirá; brochura com lombada quadrada; 368 páginas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Fear The Walking Dead

 Muito já foi explanado sobre o grandioso sucesso da série The Walking Dead, oriunda da saga de histórias em quadrinhos homônima. Pois a segunda série, no mesmo universo desta primeira, rapidamente teve o mesmo sucesso na TV, mais precisamente no canal AMC, diferente de The Walking Dead que é exibida na Fox. “Fear the Walking Dead” também é do criador Robert Kirkman, mas ambientada em outra cidade, com outros personagens, em outra situação e ilustrando o início da epidemia zumbi, que ainda não havia desmantelado toda a sociedade.
Um dos posters da realista série que tem os zumbis apenas
como protagonistas
Fear the Walking Dead, apesar de ser do mesmo universo de The Walking Dead, não tem produção em histórias em quadrinhos. Sua produção se resume apenas à linguagem da televisão e tem uma abordagem bem mais realista deste tipo de apocalipse, que sempre esteve presente no imaginário contemporâneo, sendo que a trama toda ocorre no drama de uma família comum que tenta sobreviver ao caos crescente, com todos os seus problemas particulares. Crises existenciais, filhos rebeldes, drogas, rotina familiar são algumas peculiaridades que gera identificação imediata do telespectador com os personagens da família central. Com este prisma intencional, os zumbis viram meros coadjuvantes que apenas detalham a desestruturação social em ascensão. Talvez seja este o segredo do sucesso momentâneo da série. Curiosamente, a primeira temporada teve recorde de audiência, mas as demais consequentes, tiveram audiência em decadência crescente.
A forte Madison Clark (vivida por Kim Dickens) é mãe de dois filhos que estão saindo da adolescência, Nick Clark (estrelado brilhantemente por Frank Dillane) e Alicia Clark (Alycia Debnam-Carey) e possuem o pai Travis Manawa (Cliff Curtis), que luta constantemente para manter a integridade da família, mesmo com todos os problemas recorrentes de seu casamento anterior, do abuso de substâncias químicas de seu afilhado Nick e da misteriosa epidemia que se alastra pela cidade, abalando a tudo e a todos. Com seguidos imprevistos e inconvenientes diversos, acabam por se envolver e se juntar a uma outra família que tem descendência latina e unidos passam a migrar como nômades, conforme o oportunismo aponta. Desencontros e reviravoltas são surpresas recorrentes no decorrer dos episódios, o que só aumenta o drama cativante da espectação.
Nick Clark (Frank Dillane) ao centro se infiltrando corajosamente no meio
dos zumbis.

A quarta temporada da série já começa com o crossover do universo, visto a participação de Morgan Jones (Lennie James) que atua em The Walking Dead. Algumas surpresas trágicas acontecem até então, mas para evitar mais spoilers, detalhes serão poupados aqui.
Pra quem deseja algo menos denso e mais realista de The Walking Dead, sem sair do clima apocalíptico, pode arriscar sem medo, a audiência de Fear The Walking Dead, que certamente irá se satisfazer e talvez até mesmo se identificar com algum protagonista. Vale assistir!

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Several - Carma

A banda manauense Several começou suas atividades, com letras em inglês, usando o nome “Several Skin”, com o qual lançou seu debut no ano de 1999 (veja resenha aqui: https://marioorestes.blogspot.com/2011/01/several-beyond-scenes.html) nomeado “Beyond the Scenes”. Chegou a fazer muitos shows em sua terra natal, alguns pontuais fora do Estado do Amazonas e até mesmo na terra do tio Sam. A alta qualidade sempre foi o forte do grupo que chamava atenção pelas ótimas composições, perfeccionismo dos músicos e excelente produção de gravação. Infelizmente a banda já encerrou suas atividades, mas ainda brindou o seu público com um segundo álbum, chamado simplesmente de “Carma”, todo com letras em português e no mesmo nível de qualidade de seu antecessor, talvez até melhor. É sobre esse segundo trabalho, lançado apenas no ano 2008, que esta resenha se propõe.
Capa do ótimo disco "Carma" da infelizmente extinta banda Several
A faixa título abre o disco de uma forma bem raivosa, evidenciando contra tempos. Grande trabalho nos arranjos e ótimo refrão. Uma quebrada para entrada do último refrão desacelera a música, mas sem perder o peso.
A segunda é “Hiroshima” que já traz uma levada mais simples, até a chegada do segundo estrofe, quando voltam os contra tempos. Vocais mais trabalhados e ótima letra (a propósito, todas as letras são muito boas) marcam a canção, que também tem quebrada e mudança de levada. Em terceira posição vem “Ruínas de Cartago” que atesta com propriedade tudo já dito sobre as canções anteriores. A melodia é muito marcante, mas o peso não é esquecido, mesmo quando o vocal suaviza. Um certo destaque para o contrabaixo, mas todo instrumental é límpido e discernível. “Clímax” está como a quarta faixa e não tem enrolação. Já começa com grande energia e introduzindo o primeiro estrofe. Remete muito ao primeiro CD da banda. A quebrada desta música leva o ouvinte a um dedilhado e canção quase romântica, mas apenas para introduzir um estrofe, que termina retomando o rockão marcante. Grande final. Na sequência vem “Esperanto” que mostra a forte influência de Red Hot Chilli Peppers. A balada do disco que vai ganhando distorção e excelente arranjo nas guitarras, conforme sua execução. Em seguida “Mosaico” confirma a excelência dos músicos. Incrível suas competências performáticas e como estes não deixam nada a dever para bandas gringas. Aqui o equilíbrio entre o sublime e o nervoso fica bem nítido na composição, principalmente na percepção de teclados. Talvez esta seja a canção de melhor desempenho vocal. Depois a que possui o maior título “Subversivo (a Inauguração de um Novo Bar)”, por causa do sub-título, se inicia com um ótimo riff. A letra notívaga dá uma aparência simplista, mas ainda assim, mais uma música trabalhada e complexa. A oitava faixa possui o melhor título. “Lágrima de Chorume” tem vocais principais diferenciados (não creditados no encarte) e é outra que se inicia como balada, mas ganha distorções e peso no decorrer. “Spectrum” é a anti penúltima e levanta a seguinte questão: Porque a Several não deu certo, com tanta qualidade e excelência? “Tormenta” continua o play como uma cacetada no ouvido. Uma faixa um tanto diferenciada das restantes, mas com todas as boas características de um hit. Fechando o disco “Estação Solidão” resume bem as virtudes das composições com toque de obra prima.
A arte gráfica traz mais uma capa enigmática, tendo encarte com fotos da banda ao vivo, letras de todas as músicas e uma bem sucinta ficha técnica. Em suma “Carma” é um disco estupendo numa ode ao bom gosto, que dá a sensação de “quero mais”. Uma grande pena esta pérola do rock amazonense não ter vingado.
Pra quem deseja conferir, basta dar uma procurada rápida. No Youtube é possível se encontrar tudo da Several. Vale constatar.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Miro de Melo - 30 Anos de Rock


Falar da biografia de “Mirão”, é falar muito da história do punk rock nacional. Logo, a obra “Miro de Melo – 30 Anos de Rock”, escrita pelo jornalista, músico e sociólogo Edson Luís Rosa, pode até parecer sucinta, pelas simples 86 páginas da brochura, mas é de uma importância única, por abranger dezenas e dezenas de nomes de bandas, festivais, discos, coletâneas, programas de TV e outros marcos que registram a trajetória de todo um estilo musical no Brasil.
O legado do biografado começa nada mais, nada menos, como componente da banda icônica Lixomania, que merece esta denominação por ser a primeira brasileira a lançar um disco solo de punk rock, em todo o território nacional. No caso trata-se do compacto triplo em vinil de sete polegadas lançado no ano de 1982, que recebeu o título de “Violência e Sobrevivência”. Engana-se quem pensar, que a Lixomania é uma banda do passado e que ficou marcada apenas por este feito. O grupo está ativo e tocando sempre que possível com Miro segurando firmemente as baquetas.
Capa da primorosa biografia de um dos nomes mais dignos
do rock brasileiro
O prefácio é escrito pelo escritor e dramaturgo Antonio Bivar, que também tem sua história marcada no punk brasileiro por ter escrito o lendário “O Que É Punk”, fascículo da coleção Primeiros Passos da editora Brasiliense, lançado em 1982 e tido como o primeiro livro sobre o punk rock no Brasil. Veja resenha aqui: https://marioorestes.blogspot.com.br/2013/03/o-que-e-punk.html
O miolo retrata toda a vida de Miro, contando desde o começo de sua vida, com os primeiros ensaios como baterista da 365, shows e festivais lendários, participações em programas de rádio e de televisão, como o Cacino do Chacrinha, Mara Marvilha, Programa do Bolinha e Perdidos na Noite, as brigas com os outros membros da banda, a passagem pela Fogo Cruzado até os dias de hoje com o retorno da Lixomania. Após os preciosos registros, encontra-se depoimentos de Mirão, depoimentos de muitas celebridades como por exemplo Gastão Moreira, Clemente Nascimento, Kid Vinil, João Baroni e Silvio Golfetti (só pra citar alguns), também depoimentos de pessoas menos conhecidas, mas de extrema importância para o músico como jornalistas, namoradas, amigos e vizinhos. Na sequência uma ótima lista para pesquisas com discografia, documentários e vídeos, fotos de arquivo pessoal e as referências para o todo. Além disso, todo o livro é recheado de dezenas de outras fotos, mostrando inúmeros momentos da 365, da Lixomania e de outros marcantes momentos.
Não temos um calhamaço extenso de proporções bíblicas em número de páginas, mas a biografia “Miro de Melo – 30 Anos de Rock” relatada sucintamente por Edson Luís Rosa é de um conteúdo, no mínimo, importantíssimo para se entender a carreira de um dos músicos mais dignos do rock brasileiro.
Editora e gráfica Coresgraf; São Paulo; 2ª edição, 2015.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Black Mirror

Uma série de televisão atípica que não se prende a um estilo tendo como principal característica elementos cruciais, nos roteiros, ligados a alta tecnologia, que fucionam como vetores protagonistas. “Black Mirror” é uma produção inglesa para a televisão, dirigido a um público adulto que procura muito mais do que, o configurado para consumo da grande massa telespectadora.
O paradigma já foi quebrado logo na capitulação de contrar uma história a cada episódio, com elenco diferente, sendo que as duas primeiras temporadas só possuem três episódios cada, a maioria por volta dos quarenta e cinco minutos, mas alguns episódios passam de uma hora de duração, geralmente os que fecham temporadas. Após a segunda temporada o canal fechado de streaming Netflix, fechou contrato pra exibir a série e encomendou mais doze episódios que foram separados para duas temporadas, sendo que a segunda parte ainda não foi exibida até a publicação deste artigo.
Um dos posters de divulgação da premiada série atípica
O criador, roteirista britânico Charlton Charlie Brooker, também foi o autor da série “The Guardian” e de outros trabalhos sem muitos destaques, mas emprega toda sua sátira nas histórias contadas em Black Mirror que num episódio pode ser um drama de relacionamento, em outro surge como terror de influências trash, ou simplesmente um suspense policial de cadência eletrizante. Com toda essa volatilidade, o elemento da tecnologia acaba por categorizar o conceito do todo como ficção científica.
O viés satírico é claramente percebível nos personagens interpretados com traços caricatos (apesar da grande seriedade), nos ambientes de tonalidades sombrias e principalmente nos roteiros tendentes a ironia onde, praticamente em sua totalidade, teem finais tristes ou desconstrutores.
A junção das características acaba formando média metragens agonizantes de contemporaneidade futurística que implicam diretamente na psicologia do telespectador e isso pode indiscutivelmente dificultar a audiência para muitos, principalmente os acostumados a assistir block busters.
Dentre os episódios, podemos destacar três: “White Bear” da segunda temporada, que mostra a agonia de uma criminosa condenada por uma sentença de tortura psicológica assistida por turistas. O enredo é muito intrigante e o desfecho revela toda a pena doentia. “Playtest” da terceira temporada, é o episódio de terror da série. Um jovem se submete a servir como cobaia pra teste de um protótipo de jogo de realidade aumentada, o qual cria suas virtualidades nos medos dos protagonistas. Pitadas de trash movie, mas sem exageros. E o ótimo “Me Against Fire” também da terceira temporada, que traz um ambiente militar onde o soldado de uma guarnição, que tem a honrosa missão de encontrar e eliminar uma sub-raça mutante que infiltrou-se meio os humanos, acaba por descobrir que tudo é uma farsa fomentada pelos governos, através de implantes cerebrais. Outros episódios são tão bons quanto estes destaques, mas fica a deixa pros interessados descobrirem por conta própria, o que lhes espera.
Em resumo, os norte americanos ainda são os melhores produtores da sétima arte no mundo, tecnicamente falando obviamente, mas os britânicos provam com a produção do premiado “Black Mirror”, que fora do eixo hollywoodiano existem, não apenas ótimas produções, mas também peças que brilham devido a características de bom gosto, inteligência, refinamento e muita criatividade.

domingo, 29 de outubro de 2017

Maldito Seja - Henry Jaepelt

Criada com a intenção de fornecer um determinado reconhecimento a certos quadrinhistas autorais, a série de comic books “Maldito Seja”, seleciona apenas artistas independentes que nunca alcançaram o dito mainstream, mas ao mesmo tempo possuem uma obra peculiar digna de destaque, seja pela criatividade, pelo traço emblemático ou roteiros marcantes. O exemplar “Henry Jaepelt” traz uma coletânea de trabalhos deste autor catarinense, publicados, em sua maioria, em fanzines de 1993 a 2005. A antologia é impressionante e apresenta o melhor de Jaepelt que, sem dúvida nenhuma, deveria ter condições de dedicar seu tempo apenas em sua arte.
Capa do exemplar da série "Madito Seja" que traz Henry Jaepelt
O número abre com uma apresentação do fanzineiro Denílson Rosa dos Reis que resenha muito bem sobre a característica obra de Jaepelt. Na sequência Douglas UtescherMárcio SnoPetter Baiestorf e o já citado Denílson, conduzem uma extensa e ótima entrevista com o quadrinhista que expões detalhadamente o seu parecer sobre o mercado independente, sua vida particular e seus quadrinhos únicos. Só a partir da página 25 é que começam as histórias em quadrinhos, propriamente ditas.
Ao todo são vinte e seis HQs que preenchem o livro (na verdade é um pouquinho mais, pois algumas histórias não tituladas, não são creditadas no sumário). A grande maioria é de poucas páginas, sendo várias de apenas uma página. Consideremos como justificativa que Jaepelt atua muito como ilustrador, e o motivo é bem simples: ele não vive exclusivamente de sua arte, mas sim, tem um emprego e precisa trabalhar para poder sobreviver. O que é uma pena, porque se analisarmos o seu desenho, percebemos um estilo que vaguei entre o terror/erotismo/ficção científica com textos filosóficos e non sense repletos de referências e quase sempre explorando a beleza do preto e branco. Sua anatomia é excelente, os cenários cósmicos e surreais, os contrastes de luz e sombra equilibrados numa harmonia linda, diagramação concisa e diversificada e o traço preciso e limpo. Todas as histórias do livro são excelentes, mas pra dar algum destaque podemos citar “Sundae, Bloody Sundae...” que tem várias referências nos detahes dos quadrinhos, “Lupita...” com sexualidade surreal, “Puls *” assim mesmo com o asterisco no título, é uma HQ psicodélica sem textos, “O Curioso Relato de Lumbrotelius (Da Antiga e Honorável Tribo dos Habrinoles)” que apesar do longo título, possui apenas duas páginas com roteiro de final intrigante, “Sebo do Beto” sobrepondo a audiofilia no romance, “Impulsos” uma crônica contemporânea e atemporal, sem textos e de apenas uma página, “Que Coisa!” com desenhos de Maria Jaepelt, “Estufa” de lisergia e expressividade magnífica nas hachuras, “Um Ensaio no Outono” também com colaboração de Maria e “Mutrus” que resume perfeitamente a peculiaridade dos quadrinhos deste mestre da nona arte.
A ótima série Maldito Seja” está aí não apenas para divulgar nomes poucos lembrados das histórias em quadrinhos nacionais, mas também para levar aos leitores, a nata do que há de melhor fora do sacal eixo Marvel/DC que abunda os espaços de bancas e livrarias dedicados a nona arte, sem deixar espaço para alternativas independentes. “Henry Jaepelt” é um dos melhores nomes a exemplificar esta nata com eficiência e maestria.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Filhos de Inácio - Música para Surdos

São Paulo é uma cidade que está dentre as que mais produzem bandas de rock em nosso país. Os motivos são óbvios: a cidade mais populosa, a maior metrópole, grande eixo de shows e um centro cosmopolita único, dito como a Nova Iorque da América Latina. Sendo o punk rock o estilo mais fácil, dentre as várias ramificações, é justamente esta vertente que tem a maior quantidade proliferando. Filhos de Inácio é um dos nomes representantes do controverso estilo e no seu EP de cinco faixas “Música para Surdos”, é fácil notar a boa expressividade característica.
A divertida capa do ótimo EP da banda punk paulistana Filhos de Inácio
O disquinho abre com “Mickey is Dead”. Ótima música para abertura por possuir levada punk nos tons da bateria, refrão cativante ao côro e letra engraçada, evidentemente satirizando o maior ícone de Walt Disney. A segunda “Velho Facista” tem influências de thrash metal com letra totalmente oitentista e pegada rápida do começo ao fim. Em seguida está “Beber Até Ficar Chapado”. Hard core porrada e rápido, como tem de ser. A letra, fazendo jus ao nome, é totalmente dionisíaca e nos arranjos, break pra marcação do contrabaixo, chamando pro último estrofe e refrão. Na sequência vem “Saia do Meu Caminho” que tem participação de Ariel (Invasores de Cérebro/Restos de Nada). Texto totalmente auto afirmativo, provavelmente a melhor faixa do CD. Pra fechar “Nasci Punk” com participação de Barata (DZK). Outra grande música auto afirmativa e plenamente panfletária, lembrando muito os ingleses do Exploited.
A arte gráfica é toda ilustrada com desenhos caricatos bem divertidos que embelezam capa, contra capa e encarte, tudo impresso e distribuído em capinha de papelão, tornando o material mais acessível. Traz as letras das canções, mas infelizmente peca em deixar ausente mais dados. Procurando pela internet, também é difícil de encontrar maiores informações sobre a banda que, mesmo em sua página oficial do Facebook, não dá maiores detalhes sobre o grupo e sua história.
Os pequenos empecilhos não prejudicam a ótima apresentação do EP “Música para Surdos” que traz ótimas canções do mais puro e cru hard core paulista, provando que Filhos de Inácio é um dos grandes destaques dentre o montante gerado pelo grande centro produtor de bandas da América do Sul.

sábado, 21 de outubro de 2017

The Martian

Dentre os maiores medos dos seres humanos estão a solidão e o esquecimento pelos semelhantes. Estes dois, elevados ao nível desesperador, são explorados com maestria pelo ótimo diretor Ridley Scott, que também assume a produção, da película hollywoodianaThe Martian”, que no Brasil recebeu a tradução, de “Esquecido em Marte”. Mesmo intercalando a onipresença bucólica do planeta em questão, até por exigência do roteiro, com cenas da Estação Espacial Internacional e da Terra, mostrando os esforços da Nasa, o maior drama do personagem principal vivido excelentemente por Matt Damon, consegue ser agonizante, prendendo o telespectador nesta ótima ficção científica levada às telonas no ano de 2015.
Poster da obra de Ridley Scott que passa bonita lição de vida
Mark Watney é o astronauta especializado em botânica, componente da equipe de cientistas que tem como missão, promover os primeiros avanços de colonização do dito “planeta vermelho”. Já com algumas bases de apoio concebidas em estruturas construídas alí, o grupo está numa exploração rotineira quando é surpreendido por uma forte tempestade de areia, que acaba fulminando na separação de Watney do grupo. Sem ter como resgatar o botânico, este é deixado pela equipe, dado com morto e congratulado como mártir por todos. Ferido, mas vivo, Watney se vê na inquestionável hipótese de sobrevivência solitária. Recorrendo aos seus vastos conhecimentos botânicos, consegue fazer brotar uma horta exclusiva de batatas, o que é o suficiente para lhe saciar a fome. Também é com extrema criatividade que consegue produzir água potável no ambiente artificial que se encontra. Uma vez com estes dois preceitos básicos saneados, está apto para manter-se vivo e avança para etapa, não menos crucial, de tentar contato. Alguns acidentes, acabam por suceder em sua aventura, colocando em sério risco sua vida, mas com todo inesperado, a capacidade de superação sempre vigora, garantindo-lhe a respiração. A agonia é notável, porque além da solidão delirante do personagem principal, há a onipresença do perigo que se torna um inimigo invisível e letal, que tenta se manifestar de várias formas, levando o astronauta e estar constantemente pensando e repensando seus métodos com cálculos, estratégias e análises que nem sempre funcionam, mas vigoram na insistência pela vida.
O belo longa metragem de 141 minutos “The Martian” impressiona em sua capacidade de provar a maior característica da raça humana, a de adaptar-se nas mais hostis situações para a sobrevivência da espécie, mesmo que para isso seja preciso a exploração máxima da inteligência, da sagacidade e principalmente da criatividade. Grande filme que passa uma linda lição.