Auto biografia artística virtual. Registros de eventos, resenhas, crônicas, contos, poesia marginal e histórias vividas. Tudo autoral. Quando não, os créditos serão dados.

Qualquer semelhança com a realidade é verdade mesmo.

domingo, 31 de outubro de 2010

O 7° Encontro De Quadrinheiros

No ano de 1999, mais precisamente de 05 a 20 de novembro, o Clube Dos Quadrinheiros de Manaus realizou o 7° Encontro De Quadrinheiros no Espaço Cultural Valer.  Logicamente que eu participei como organizador e produtor.  Devo ter feito também algum dos roteiros dentre os quadrinhos expostos.  O evento teve abertura com banda ao vivo, lançamento e venda de fanzines, exposição de quadrinhos (que durou todos os dias do Encontro) e apresentação de um grupo de capoeira.  No decorrer dos dias, houveram mostras de vídeos simultaneamente à exposição que era permanente.  Nos últimos dias aconteceram mais atrações musicais, workshops de quadrinhos e palestra com convidado, o premiado quadrinhista Lourenço Mutarelli.
Lourenço além de “britânico” (no sentido profissional) e talentosíssimo é lunático como todo grande quadrinhista, apesar do semblante calmo e apaziguador.  Uma das primeiras coisas que eu fazia quando recebíamos convidados de fora, era perguntar qual a droga ou psicotrópico desejado e me oferecia para veicular o objeto.  Lourenço, diferente dos outros convidados que já trouxemos, agradeceu e disse já andar carregado com o que lhe convém.  Lorex.  Forte droga de tarja preta indicada para o tratamento de depressão, psicopatia, esquizofrenia e outros males afins.  O bom é que Lourenço realmente tem histórico enfermo e necessita do abastecimento constante com a legalidade do receituário médico.  Perfeito.  O cara não era carismático como Laerte, Hilário como Ota, metódico como Gian Danton e amigo junkie como Adão Iturrusgarrai, mas tinha suas peculiaridades e também deixou boas lembranças.
Ainda há um velho sonho latente de voltar a realizar esses encontros que simbolizavam o ápice de nosso expressionismo artístico por serem interativos, gratuitos, ecléticos, dinâmicos e multiculturais.  Antes, precisamos reestruturar o grupo.  Está sendo uma batalha árdua por ter apenas três membros (e mais um novato) dispostos a levar adiante a realização do sonho.  Mas estamos perseverantes e vamos continuar até que o último de nós caia.
Abaixo uma série de registros desse 7° Encontro De Quadrinheiros.



A banda Underflow foi uma das atrações musicais do 7° Encontro De Quadrinheiros.




Registros da palestra de Lourenço Mutarelli.






Primeiro folder do 7° Encontro De Quadrinheiros.

Frente do segundo folder do 7° Encontro De Quadrinheiros.

Verso do segundo folder do 7° Encontro De Quadrinheiros.

O cartaz do 7° Encontro De Quadrinheiros.

sábado, 30 de outubro de 2010

Zeitgeist Addendum

Certo dia me recomendaram assistir ao filme Zeitgeist. Disseram que devido ao teor revelador, tinha tudo a ver comigo. Consegui uma cópia com uma amiga e assisti. Adorei! Até porque coloca em cheque a porcaria do cristianismo e do capitalismo. Imediatamente fiquei sabendo que havia um segundo filme. “Addendum”. Fui atrás no You Tube e consegui assistir todo parte a parte. Encontrei um site brasileiro do movimento (sim! É um movimento). Fiz contato e agora sou até representante do Estado do Amazonas. Já estou planejando a primeira exibição pública do filme “Addendum”, que divulgarei assim que tiver tudo combinado.
A filosofia principal é quebrar o capitalismo e o sistema monetário, buscando um modelo de sociedade auto sustentável. Pode parecer utopia, mas esse modelo vigorava entre tribos indígenas e em sociedades como Maias, Astecas e Incas.
Abaixo o trailer do filme “Addendum”.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Marcelo Nova Em Manaus

No primeiro trimestre do ano passado eu tive a oportunidade de assistir a um show, revival dos anos 80, que trazia Léo Jaime, a banda Rádio Táxi, Nazi e Marcelo Nova.  Como é praxe nesses tipos de evento com vários artistas em um único show, cada um executou cerca de 5 músicas com uma banda de apoio e no final fizeram uma jam com todos reunidos no palco.  Devido a minha idade e ao fato de eu ter crescido na década de 80, me foi bastante agradável o show.  Contudo, sou fã de carteirinha de Marcelo Nova, desde a época do Camisa de Vênus.  Evidentemente que, particularmente, o ápice foi sua performance que me veio como um sonho em vê-lo pela primeira vez em terras amazônicas.  Porém, um pouco mais de um ano depois, eis que esse sonho tende a ampliar-se.  Meu amigo, de longos anos, Ehud Abensur (vocalista da banda Sarcásticos), está veiculando a vinda do Bob Dylan da Bahia para, desta vez, um show só dele.  Lógico que me ofereci pra ajudar em divulgação e no que mais for preciso e no afã de estar agora à frente do programa Vertical Classic Rock na Rádio Vertical, já nos escalamos para uma entrevista exclusiva com esse grande poeta do rock brasileiro.
Abaixo a divulgação deste show que promete casa lotada.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O Brinde Do Phodas-C 1374


O brinde do fanzine Phodas-C n° 1374 era uma fita K7 com a Trilha Sonora Internacional do Phodas-C (sim, houve a Trilha Sonora Nacional.  Não possuo cópia, mas se um dia eu encontrar com alguém, postarei aqui) trata-se de uma seleção de músicas ordinárias, gravadas num aparelho ordinário numa fita K7 ordinária, pois era um brinde de um fanzine ordinário.  Primeiro eu fui atrás das fitas K7.  Rodei as importadoras da Zona Franca de Manaus até encontrar o preço mais barato de uma marca japonesa tão vagabunda que qualquer pessoa era capaz de quebrar a fita ao meio apenas com as mãos.  Posteriormente recebi duas reclamações dessas fitas que enrolaram no cabeçote de aparelhos.  Depois parti pra seleção.  Como o fanzine era em parceria com Adelino Lobato, convidei-o para colaborar.  Haviam dois critérios básicos: 1) tinha de ser banda ou artista internacional, visto que brasileiros já estavam na Trilha Sonora Nacional e 2) a música tinha de tratar de devassidão, drogas, caos ou qualquer outro assunto non sense em sintonia com a filosofia anárquica (no pior sentido da palavra) do zine.  Como Adelino já havia feito a capa da Trilha Sonora Nacional, eu tratei de fazer essa Internacional.  Porém, como eu queria algo relativo à temática abordada no exemplar do zine que viria com o tal brinde, optei por fazer uma capa relacionada com a capa do fanzine.  A capa deste Phodas-C era abstrata, então quase não tive trabalho em fazer a capa da fita abstrata também.  Estava pronta a Original Soundtrack Recording of Zine Phodas-C.
Abaixo a capa e contra capa da tal fita brinde.



quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Como Voluntário do Greenpeace Manaus

Outro grupo que participo é o de voluntários do Greenpeace (Manaus).  Aliás, eu com 8 anos e meio de voluntário desse grupo, estou dentre os voluntários mais antigos do Greenpeace.  Muitas são as histórias que já vivi com esse grupo.  Já realizei três viagens pela organização, participei de inúmeros treinamentos, assisti dezenas de vídeos e palestras, fiz amizades de vários lugares do Brasil e algumas do exterior, contatos diversos e muita troca de experiências.  Muitas pessoas (a maioria) confundem voluntário com ativista, mas nesses 8 anos e meio, eu só participei de uma ação direta do Greenpeace.  Apesar de ser muito treinado, estar sempre me reciclando e conhecer a fundo a filosofia da organização e suas campanhas, não sou muito bem visto por alguns funcionários, por eu ser questionador, incentivar esse questionamento nos voluntários e não puxar o saco de ninguém.  Alguns amigos não entendem o porquê de quando há chamada pra alguma ação direta ou atividade qualquer pra fora do Estado, sempre selecionam outro voluntário menos experiente e com menos tempo de organização.  Eu explico o porquê (na surdina) e já nem me importo mais com esse tipo de injustiça que existe nas pequenas organizações, ainda mais nas grandes.  Até já fui coordenador do grupo e consegui manter a qualidade dos trabalhos no momento em que tivemos a mais pesada demanda de serviços, na realização da COP 15.
No momento as inscrições para voluntariado estão abertas.  Então, caso haja interesse em alguém participar, basta fazer contato através dos e-mails no folder virtual abaixo.  Em seguida uma seqüência de fotos deste voluntário, considerado subversivo, em algumas atividades de comunicação pública.







terça-feira, 26 de outubro de 2010

Paraíso Na Fumaça


Chris Simunek é um homem abençoado com um dos melhores empregos do mundo.  Por todo canto que passa, sempre alguém repete isso pra ele.  Trabalha pra revista norte americana High Times, que é uma revista temática sobre a maconha e afins que está em atividade desde a década de 70.  Até aí, nada demais, se ele trabalhasse numa redação barulhenta e tumultuada como toda redação que se preze.  Porém, este yankee sortudo trabalha viajando o mundo todo, se embrenhando por todo o interior a procura de psicotrópicos e fumos regionais para experimento próprio.  Em seguida envia um relatório sobre a experiência para a redação e parte para o próximo lugar.  Nas andanças pelo mundo o tal jornalista já passou até pela Amazônia pra experimentar Ayahuasca, Paricá e outras maravilhas da terra.
O livro “Paraíso na Fumaça” é apenas um aperitivo de seu roteiro, por relatar com informalidade e muito bom humor essas vivências, no mínimo, interessantes.  De entrevistas com cultivadores de maconha transgênica ou hidropônica a bastidores de shows do Grateful Dead ou do Mötorhead, passando por encontro de Hell’s Angels e comunidades hippies, as descrições são hilárias e cativantes até pra quem não é chegado na “maldita”.  Levando o leitor pra dentro de um filme B que mistura Quentin Tarantino, Don Martin e Jeferson Airplane, tudo parece psicodélico e cartunista.  Mais interessante ainda é que o improvável está sempre a seu lado, por estar ligado, na maioria das vezes, com o ilícito.
Chris Simunek, Paraíso na Fumaça, Editora Conrad, São Paulo, 2002, 190 páginas, tradução de Neuza Maria Simões Capelo.
Leitura mais do que recomendável.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Nuances

Hoje em dia eu participo de seis grupos como voluntário.  Um deles é o GRAUNA (Grupo Amazônico União Naturista).  Até já fiz uma postagem aqui de um depoimento meu para o devido grupo.  A propósito, o tal depoimento diz respeito a uma performance realizada por um sub-grupo do GRAUNA denominado “Coletivo Artístico do GRAUNA”.  A performance foi realizada em março deste ano no Coletivo Difusão na abertura de uma exposição de fotos (chamada Nuances da fotógrafa Macarena Mairata) nossas baseadas em ilustrações do poeta e filósofo Kalil Gibran.  A performance durou cerca de 30 minutos foi fotografada e filmada.  A iluminação estava ótima e como se deu a céu aberto noturno, o efeito do resultado final ficou lírico e poético.  Participaram da performance os naturistas Jorge Bandeira, Iran Lamego, Iana Borges, Tatiane e eu.
Abaixo apenas seis fotos dentre as mais de duzentas tiradas.  Limitei a postagem por dois motivos básicos: 1) elas estão num formato muito pesado que demora pra carregar e 2) não quero que este blog tenha aquela página inicial padrão do Blogger de censura alegando conteúdo impróprio.
Informações ou contato com o GRAUNA podem ser feitas através do site do grupo (link disponível aqui na sessão de “Recomendados”) ou simplesmente postando comentários aqui.







domingo, 24 de outubro de 2010

Front Zine 6

Normalmente nas modificações feitas em fotos através do Photoshop, as pessoas procuram melhorias estéticas como emagrecimento ou efeitos de cirurgias plásticas.  Porém, no “Front Zine” n° 6, Fábio Prestes, novamente em homenagem a seus ídolos clássicos, deu uma engordada em Davi, a escultura renascentista de Michelangelo que demonstra, na naturalidade do relaxamento, uma anatomia masculina perfeita.  A manipulação é perfeita e até hoje desperta sorrisos em quem a olha.
O texto de minha autoria (que reproduzo em seguida) explana numa sutil resenha a demo tape da extinta banda de thrash “Darkest Fears”, que teve em sua capa a pintura do próprio Fábio Prestes usada como arte central do Front Zine n° 5.



Mais uma ótima banda do cenário local.  Darkest Fears lançando sua primeira demo tape, “Incomplete Minds”, nos serve um prato cheio de bom gosto em rock pesado.  De cara, percebe-se a forte influência de Anthrax, Helloween e Suicidal Tendencies, sem perder sua personalidade.  “Deadly Years”, “Dead In The Long Avenue” e “Never” mostram os bonitos efeitos conseguidos pelo guitarrista solo.”Devotion Song” e “Hidden” já deviam estar rolando na “Demo MTV” (sem exagero algum).  “What’s Rage” e “Arabian Graves” são as melhores músicas, que chegam a impressionar pela excelente qualidade de gravação e o completíssimo encarte, com fotos da banda, letras das canções e créditos.    Realmente recomendável, “Incomplete Minds” pode ser adquirida na Rock Store Discos, rua Barroso, edifício Alfredo Cunha, loja 7.  Corra para pegar a sua!


sábado, 23 de outubro de 2010

Dilema


Vem cá menininha.
Não despreze seu amante,
Pois a vida é muito breve
E eu já disse isso antes.
E eu sei lhe usar para dançar
Rock and Roll.

Estou dividido
Entre você e minha guitarra,
Mas não fique preocupada,
Pois ‘cê é melhor que nada.
E eu sei lhe usar para viver
Rock and Roll.


Por: Mário Orestes Silva

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O Livro Do Clube Dos Quadrinheiros De Manaus


Certo dia, no ano de 2004, o professor Tenório Telles (escritor, poeta, dramaturgo, membro da Academia Amazonense de Letras e Administrador da Editora Valer) me chamou pra uma conversa em particular.  Imaginei: “Pronto!  Ele soube de nossos podres e pedirá nossas cabeças.  Nos chamará de maconheiros, vagabundos e tudo mais que não presta”.  Fiquei surpreso quando ele disse que veicularia uma parceria entre Editora Valer e a Editora da UFAM pra lançar um comic book do Clube Dos Quadrinheiros de Manaus e ainda me convidou pra organizar o livro.  Com uma proposta irrecusável como essa, tratei de reunir o grupo e comunicar o convite.  Fiz uma seleção abrangendo o maior número de autores (dentre desenhistas e roteiristas), onde usei como critério de seleção, aquilo que considero como a obra prima de cada um e algumas poucas histórias emblemáticas do grupo.
Já tínhamos as histórias, apenas estipulei uma ordem sequencial e comecei a coletar os originais.  Algumas não consegui por puro desleixo dos devidos autores, então tivemos de tirá-las de fanzines onde elas foram publicadas.
Começou o chato processo de edição.  Eu ia constantemente ao escritório da Editora.  Pegava chá de cadeira de quarenta minutos a uma hora pra escutar o funcionário dizer: “Olha, o trabalho está ficando assim.  Me diz o que tu acha e eu altero depois porque agora estou ocupado com o livro do Thiago de Mello”.  Ou então dizia: “Volta semana que vem, porque agora estou ocupado com a edição de um catálogo de culinária”.  Essa enrolação demorou um ano.  Eu me sentia um trapo quando tinha de ir ao escritório.  Nas reuniões já tinha gente que não acreditava mais nesse livro e alguns chegaram a comentar que isso era viagem minha e que não existia livro nenhum.
No primeiro trimestre de 2005, finalmente o livro ficou pronto.  Impresso o trabalho, verifiquei algumas falhas e outras coisas que poderiam ser melhoradas, mas o parto estava feito e o filho não poderia mais ser negado.  Fizemos uma modesta festa de lançamento no Espaço Cultural Valer, divulgamos nos meios de comunicação e distribuímos os exemplares de direto pra cada autor.  No mesmo ano o livro foi um dos representantes do Estado do Amazonas na Bienal Internacional do Livro em São Paulo e recebeu excelentes críticas da mídia em geral.  Exemplares a venda podem ser encontrados na Livraria Valer e na Livraria da UFAM.
Abaixo a capa feita por Rogério Romahs com a ilustração que retrata fielmente a rotina que todo quadrinheiro gostaria com o detalhe do símbolo do grupo (o urubu) como protagonista.


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Paz Verde


O conto a seguir pode muito bem ser acusado de plágio da produção hollywoodiana “Avatar”.  Mas há uma questão.  Ele foi escrito cerca de cinco anos antes de ser lançada a super produção de James Cameron.
Dedicado a todas as pessoas que trabalham no Greenpeace e exercem a sua filosofia com dedicação e amor, em especial os voluntários, todos os nomes próprios contidos na história são referências à nomes de grandes personagens que fizeram e/ou ainda fazem parte desta organização encantadora.




O planeta Bohunt era o único habitado daquela galáxia por vida inteligente.  Sua população constava de seres assexuados herbívoros, que ainda assim praticavam fotossíntese e apesar de serem humanóides possuíam anatomia peculiar, pois eram privados de pêlos, genitálias e orelhas; tinham a pele esverdeada com as íris dos olhos brancas.  Falavam uma única língua e contudo, podiam comunicar-se telepaticamente.  Viviam em vida comutativa, sem política, classe social, fronteiras, credo ou religião.  Não possuíam escrita devido ao desenvolvimento da telepatia e também não produziam nenhuma espécie de arte.  Eram os Pegarres.  Também não usavam roupas e nenhum outro tipo de artefato.  Sua tecnologia era restrita a ferramentas rudimentares necessárias para a manutenção do fogo e construção de suas moradas em cabanas simples, confeccionadas de barro, madeira e palha, que limitavam-se ao térreo.  Com toda simplicidade eram donos de grande inteligência, dominavam o conhecimento empírico para a cura de suas enfermidades e produção de culinária.  Eram pacifistas e praticavam a comungação afetiva entre seus semelhantes e até mesmo com a fauna e com a flora que ambas, eram ricas e variadas em todo o planeta que tinha sua geografia caracterizada por um único continente que circulava o globo dividindo-o em dois oceanos.
Numa grande planície do continente, existia uma enorme falha geológica em forma de cratera com alguns quilómetros de diâmetro.  Suas bordas e paredes internas eram cobertas por densa vegetação que por si só abrigava dezenas de espécies de animais.  Sua profundidade era tão grande que não era possível enxergar o fundo.  O lugar era visitado por centenas de Pegarres todos os dias, pois lá era grande a concentração de clorofila, partícula responsável por parte da alimentação desses indivíduos que ocupavam-se de atividades lúdicas, por quase o dia todo, no entorno do lugar que era conhecido como Mármun.  Certa vez, uma expedição desceu as entranhas da grande cratera com o simples intuito de explorá-la.  Porém esses aventureiros perderam o contato telepático em certa altura da expedição e nunca mais retornaram à superfície.  Isso fez com que os nativos chegassem a conclusão de que o Mármun deveria continuar como sempre foi, inexplorado, misterioso e respeitado.
Apesar de não possuírem governo, os Pegarres levavam uma vida consensual que nas questões mais difíceis eram orientados pelo Quesine, que tratava-se de uma espécie de conselheiro para toda aquela população.  Muitos comunicavam-se de longe numa telepatia distante, somente para se aconselharem com o Quesine que após sua morte era sempre substituído pelo mais idoso Pegarre.
Certo dia, o céu de Bohunt amanheceu repleto de naves flutuantes.  Eram dezenas de espaçonaves alienígenas enormes, negras com aparência biomecânica.  Até os mais distantes, que ainda não tinham avistado as naves, já sabiam através da comunicação telepática, o que estava sucedendo.  A princípio, aquilo assustou os Pegarres que até então nunca haviam tido conhecimento de alienígenas, mas a tranquilidade natural deles preparou-os para o primeiro contato.  Depois de algum tempo uma das naves aterrissou próximo ao local onde estava o Quesine.  Abriu-se uma grande porta por onde saíram os quatro primeiros seres desconhecidos que mostraram-se mais fantásticos do que o esperado.  Eles eram quadrúpedes com duas caudas cada um.  Tinham o corpo cinzento coberto por uma rala pelugem como equinos.  Suas cabeças eram compridas com bocas pequenas e ciclopes.  Privados de orelhas, narinas e genitálias.  O que mais impressionava era o tamanho de cada um que media no mínimo sete Pegarres de altura e ficavam mais altos ainda ao postarem-se nas duas patas traseiras quando precisavam usar as dianteiras para outros fins.
Os quatro seres caminharam até o aglomerado de Pegarres.  Ao chegarem perto, um deles falou na direção do Quesine na língua nativa:
- Somos os Nortames!  Viajamos o universo a procura de um insumo para nosso combustível chamado clorofila.  Esta partícula, nos é extremamente tóxica, mas essencial para a fabricação do que necessitamos!  Após achar este astro que vocês chamam Bohunt, passamos a estudá-lo e constatamos que até mesmo o organismo de vocês é rico dessa substância!  Contudo, vocês terão de migrar para outro astro, pois precisamos extrair todo o organismo vegetal aqui existente!
Por alguns momentos os Pegarres olharam entre si, mas aos poucos, os olhares voltaram-se todos para o Quesine que respondeu:
- Se concordarmos estaremos aceitando a exploração total de nossos recursos vegetais e assim estaremos ratificando a destruição de nosso planeta!  Não existe alternativas?
- Permanecendo aqui vocês não têm chances de sobrevivência, mas viabilizaremos toda a estrutura necessária pro transporte de toda a população para um longínquo astro muito semelhante ao de vocês! – disse o Nortame.
- Se há um outro planeta, rico em clorofila, semelhante ao Bohunt, porque este não é explorado, em vez de explorarem nosso planeta? – perguntou o Quesine.
- Trata-se de um astro bem maior que o de vocês.  Lá causaríamos um impacto ambiental bem maior.  Sendo que somente os poucos recursos daqui já nos são suficientes e é mais conveniente impactar um astro pequeno a um astro grande!
Disse o Nortame que, indiferente às faculdades telepáticas dos Pegarres, pensou naquilo que seria um terror para uma população que jamais havia imaginado a guerra.  Eles captaram imagens de Nortames armados invadindo uma aldeia qualquer onde os seus habitantes eram mortos impiedosamente.  Tudo era destruído e queimado.  Cadáveres empilhados em covas coletivas e depois incinerados.  As últimas imagens mostravam as naves Nortames carregadas de recursos vegetais deixando para trás um planeta deserto, árido e sem nenhum tipo de vida.
O Quesine trocou olhares com os outros Pegarres que já sabiam que não deviam aceitar a proposta dos Nortames.  E após demorados segundos que mais pareciam horas, o líder disse:
- Sabemos que não cumprirão o prometido e não podemos permitir genocídio em nosso mundo, de modo que não poderemos deixar nosso lar, muito menos deixá-los explorar nosso meio ambiente!
O Nortame virou sua enorme cabeça para seus companheiros atrás de si, como que surpreso pela reação Pegarre e voltou-se confirmando a decisão:
- Apresentamos nossa proposta e faremos tudo que for possível para concluir nosso objetivo!  Se não colaborarem, sofrerão as consequências das atitudes drásticas que tomaremos!
- Poupe nosso planeta e nosso povo que não tem muito e sempre viveu em comunhão! – implorou o Quesine com humildade já prevendo o pior.
- Daremos a chance para refletirem sobre o melhor para vocês!  Aguardaremos até o anoitecer!  Se após o pôr-do-sol não mudarem de idéia, preparem-se para o pior! – enfatizou o Nortame que virou-se e caminhou de volta à nave de origem com seus companheiros.
Horas e horas se passaram com as naves estagnadas no céu de Bohunt.  Os Pegarres chegaram a iniciar um questionamento entre si com o intuito de encontrar uma solução para aquela situação problemática, mas não alcançaram um resultado que aparentemente iria satisfazer aqueles que pareciam estar lá para colonizar e explorar.  Eles que falavam pouco por sua natureza, agora ficaram calados evidenciando suas certezas que retratavam melancolicamente seus medos.  Medos estes que jamais haviam sido manifestados por um povo que não tinha conhecimento nenhum de auto defesa, pois desconhecia também o ataque, a agressão física e o latrocínio.
Nenhum chegou a cogitar a possibilidade de fuga porque não eram carnívoros, logo, não conheciam emboscadas e estratégias de caça que vivia-se normalmente na relação entre presa e predador.
O céu escureceu e as estrelas que apareceram não refletiam mais o brilho da benevolência daqueles que agora experimentavam pela primeira vez o temor de uma surpresa aterrorizante.
Repentemente as naves que encontravam-se espalhadas pelos céus de Bohunt começaram a pousar.  Delas saíram Nortames armados que postavam-se em suas patas traseiras para poderem empunhar suas armas com as dianteiras.  Isso deixavam-os maiores do que eram causando mais pavor ao povo Pegarre.  As armas eram compridas com aparência biomecânica e encaixavam em uma das patas enquanto a outra acionava o gatilho.
Sem aparentemente nenhum motivo o primeiro Nortame disparou um tiro contra o mais próximo Pegarre.  Após um forte ruído, o disparo saiu como um raio negro que acertando a vítima em cheio abriu-lhe em enorme buraco em seu tórax.  Assim que o corpo caiu sem vida no chão, os demais admiraram perplexos a cena de violência e puseram-se a fugir logo que soou o segundo disparo.  Agora o povo já atinava para a fuga apavorada que foi primeiramente canalizada para as moradias dos coitados.  Mas ao perceberem que ali eram alvos fáceis, procuraram abrigo embrenhando-se na mata e escondendo-se em qualquer cavidade que oferecesse alguma segurança.  Não demorou muito para os agressores começarem a adentrar-se nas matas em busca de mais alvos.  Atiravam em qualquer um sem poupar crianças e idosos.  Pouco a pouco ia aumentando o número de corpos Pegarres espalhados pelo chão que manchava-se progressivamente com o sangue verde claro das vítimas indefesas.  Colocou-se fogo nas moradias e os que escondiam-se longe enxergavam amargurados as nuvens de fumaça que denunciavam a barbaridade.
O Quesine que era protegido em uma distante caverna já ponderava a possibilidade de trégua através da rendição, mas tinha certeza de que isso seria a condenação à morte de todo seu povo.  Foi quando lembrou-se de que o Nortame havia dito em seu contato que a clorofila lhes é extremamente tóxica.  Em sua mente surgiu uma idéia que parecia ser a única salvação de sua espécie.  A reação.  Mas como reagir sem armas e sem nenhuma experiência de combate?  Assim que obteve essa resposta, o Quesine passou imediatamente a idéia para os demais, que surpresos resolveram acatar a proposta e colocá-la em prática mesmo que isso significasse o sacrifício de alguns.
As armas Nortames eram eficazes, mas a eficiência era precedida por um pequeno detalhe.  O intervalo entre os disparos necessitava de alguns segundos para a arma concentrar energia suficiente para um novo disparo.  Segundos estes que eram suficientes para uma suposta vítima aproximar-se de seu agressor e realizar a reação.
Em uma clareira na selva, dois Nortames atiravam com um vigor doentio em um grupo numeroso de nativos espantados que fugiam para o interior da mata quando, instantaneamente aqueles que eram os alvos pararam sua fuga e entreolharam-se com hesitação.  Mas a hesitação acabou quando mais uma vítima caiu morta ao solo.  O Nortame autor do feito preparava-se para outro disparo quando percebeu algo que não esperava.  Os Pegarres agora estavam agarrando-se em suas patas, subindo uns por cima dos outros e começavam a escalar o corpo Nortame.  O agressor a princípio ficou perplexo com a reação inesperada, porém ao perceber que sua arma já estava pronta para outro desfecho, atirou para baixo em um daqueles que subiam em seu corpo.  A cabeça do indivíduo foi esfacelada e seu corpo sem vida obedeceu a lei gravitacional sem desestimular os outros que já alcançavam o dorso do Nortame.  Antes que a arma estivesse pronta novamente, aquilo que em pouco tempo atrás era um soberano invasor, agora havia se transformado em um monte disforme de Pegarres sobrepostos uns sobre os outros que movia-se sem uma direção definida.
O estrondo de um disparo soou atirando longe o cadáver do Pegarre que estava agarrado na boca do cano da arma Nortame.  O quadrúpede, evidentemente atirou nas cegas devido a ausência de visão e de movimentos lógicos que o monte de nativos causava ao cobrir aquele que agora estava na condição de vítima.  O segundo Nortame podia ter ajudado seu companheiro mas seu estado já não era diferente do outro.  Quando o primeiro foi ao chão, esmagou os Pegarres que estavam entre seu corpo e o solo.  Mas grande foi a euforia dos Pegarres restantes ao notarem que o invasor jazia com uma espuma branca saindo de sua boca.
Os Pegarres eram um povo livre, gozavam de uma vida próspera e sua natureza não comportava a violência, o rancor e o ódio.  Por um momento, viram-se na inédita situação de explorados onde a humilhação atuava para aqueles que sobreviviam ao genocídio.  Suas dignidade e prosperidade ameaçadas, agora emergiam novamente com a também inédita sensação de vingança que crescia dentro de cada um ao dividirem a informação do sucesso da reação.
Qualquer aldeia Pegarre tinha um grupo de Nortames armados que caçavam impiedosamente seus nativos.  Desde então, esses Nortames ficaram atónitos com aquilo que era inesperado.  Todos os Pegarres não demonstravam mais medo e insegurança ao saírem de seus esconderijos e partirem, literalmente para cima, de todos os invasores.  Euforia com uma determinação inquestionável era a nova ordem seguida a risca por todos os humanóides esverdeados.
Os Nortames eram maiores fisicamente, consequentemente mais fortes, e estavam armados, porém eram mais lentos; inclusive, suas armas também eram lentas.  E o que mais contava em desfavor deles, era o contigente.  Enquanto estes eram apenas algumas dezenas por nave, os Pegarres somavam centenas por aldeias e agiam como se fossem formigas cobrindo por completo os corpos dos invasores de seus formigueiros.  Com toda a agressividade do contra ataque, não se via violência maior por parte dos reagentes.  Muitos chegavam a despejar seus excrementos e outros dejetos fisiológicos nos quadrúpedes, mas isso era puro impulso compulsivo como forma de repúdio instintivo exercido naturalmente.  Esses produtos fisiológicos, assim como o suor, eram riquíssimos em clorofila e agiam como poderosas toxinas, em contato com as partes mais vulneráveis do físico Nortame, o que tornava a reação mais letal ainda.
Pela primeira vez, esses invasores que a princípio viram seus objetivos caminharem ao fechamento com determinado sucesso, concluíram que deviam aplicar a retirada.  Todos os batedores estavam sendo dominados e mortos um a um.  Alguns que perceberam a reviravolta do acontecimento, conseguiram retirar-se antes de tombarem como os outros.
As grandes naves invasoras que estavam aterrissadas, recolhiam os batedores sobreviventes que postavam-se em fuga e decolavam.  Uma delas esperava um de seus cruéis tripulantes embarcar, mas ele foi dominado, e antes que a nave fechasse sua porta de entrada, alguns Pegarres conseguiram penetrar em seu interior para evidentemente morrerem corajosamente.  O fechar da porta ainda esmagou um Pegarre que não conseguiu entrar a tempo e ficou com a metade de seu corpo para fora.
Como já sabiam da estratégia de vingança adotada que mudara o rumo da situação, todas as gigantescas naves decolaram e postaram-se estáticas a uma segura distância do solo.  Assim permaneceram enquanto os Pegarres cuidavam de seus feridos, mortos e avarias nas aldeias.  Era um momento de muita dor a um povo que nunca precisou enterrar mortos por assassinatos e quando isso aconteceu, deu-se em um grande número.  Centenas e centenas choravam suas desgraças e a de seus mais próximos que quando enterrados, eram feitos como mártires.  Nada parecia consolar as vítimas daquele genocídio que sofriam mais ainda ao olharem, mesmo que por um instante, qualquer uma daquelas naves pairadas sobre eles como a ponderar os fatos.
Longe das planícies; uma íngreme montanha abrigava uma caverna com uma enorme galeria iluminada por falhas em sua cobertura que liberavam luz solar.  Musgos e fungos cobriam as paredes.  A parte superior era coberta por ameaçadoras estalactites de diversos tamanhos e espessuras como se estivessem prontas para cair a qualquer momento, entre uma e outra postavam-se teias de aracnídeos e insetos diversos.  O solo irregular estava coberto de fezes, musgos e vários insetos que quando não encontravam-se mortos em estado de decomposição ou com suas carcaças secas, estavam trafegando de um lado a outro cumprindo suas rotinas animais.  Numa olhadela superficial, ali parecia desabitado de qualquer vida animal e vegetal.  Na verdade abundava de uma biodiversidade única daquele lugar e de outros semelhantes em Bohunt.
Contudo, no momento a galeria estava repleta de outros seres.  Pegarres haviam capturado um Nortame que agonizava seus últimos momentos de vida que eram dragados pelo contato direto e constante que teve com os esverdeados que tanto lhe eram nocivos e haviam lhe enclausurado lá.  O prisioneiro estava caído no centro de uma grande roda formada por dezenas de Pegarres que certamente cobririam o corpo quadrúpede levando-o ao falecimento se assim o desejassem.  Logo, o prisioneiro entendeu o motivo de deixarem-no vivo.
Dentre os Pegarres surge o Quesine que aproxima-se calmamente e pergunta:
-        Vivemos em Bohunt há muito tempo sem nunca ter incomodado qualquer das espécies que divide esse astro conosco!  Estávamos dispostos a ajudá-los em suas necessidades, porém, vocês nos trataram de maneira horrenda como jamais havíamos experimentado antes!  Porque vocês estão fazendo essa maldade conosco?
O Nortame sabia que estava falecendo, e como se sentisse um misto de remorso e culpa, optou por falar a verdade sem mais nada esconder para aqueles lesados.
- O que dissemos em nosso primeiro contato é verdadeiro!  Viemos aqui com o único objetivo de captar clorofila para nossas reservas!  Bohunt é o único astro rico desta substância num raio de milhões de anos-luz!  Sabemos da existência de Mármun e vamos explorá-lo em muito breve com o nosso extrator magnético de substâncias!  Sabíamos que não iriam aceitar nossa proposta inicial e já estávamos preparados para a prática da repressão!  O que não contávamos era com a resistência corpo a corpo de vocês que acabou por nos mostrar o quão tóxicos seus corpos podem nos ser!
- Além de toda a vegetação de nosso planeta, ainda irão explorar Mármun? – perguntou o Quesine.
- Sim!  E agora que sabemos que seus corpos também são ricos em clorofila, estamos dispostos a capturá-los vivos ou mortos! – respondeu a besta que deu um suspiro agonizante e morreu.
Todos os Pegarres presentes ficaram perplexos apenas trocando olhares confusos de parecer medonho.
As aldeias voltaram a ser povoadas.  Temerosos com as naves ainda paradas no céu, mas confiantes no então descoberto poder de combate em conjunto, pouco a pouco os Pegarres tiravam seus filhotes dos esconderijos e analisavam suas situações.  As condições não eram fáceis.  Muito havia sido destruído e muitos haviam sido mortos.  A angústia daqueles que haviam perdido seus mais próximos misturava-se com a vontade de vingança, sentida na reação que desencadeou na reviravolta, e com a incerteza daquilo que certamente iria acontecer a qualquer momento.  Por isso, ninguém estava sentido-se totalmente seguro.
Muito tempo passou-se sem que nada acontecesse, até que finalmente as naves começaram a mover-se em uma única direção reta.  Aqueles que viam as naves sumirem no horizonte, alegravam-se em saber que elas afastavam-se causando tranquilidade.  Alguns chegavam a ficar eufóricos frente a nova sensação de liberdade.
Se era admirável o recuo das naves Nortames, essa admiração não durou muito.  Logo os Pegarres perceberam que elas dirigiam-se para um único local, o Mármun.  Todas estavam aglomerando-se bem acima do centro daquela gigantesca cratera.  Os Pegarres do entorno ficavam observando com curiosidade o acontecimento singular que a cada momento tornava-se mais espetacular.  Assim que todas as naves reuniram-se, começaram a encostar-se uma nas outras e a encaixarem-se como peças de um enorme quebra-cabeça produzindo um barulho metálico a cada encaixe.  Algumas viravam de direção para encontrar a posição certa para o encaixe perfeito esperado.  O que antes eram várias naves independentes, aos poucos tornava-se uma única e colossal estrutura flutuadora.
Os Pegarres que observavam o sucedido ficaram estupefatos com o que viram e medonhos com a possibilidade de uma tragédia maior do que a já acontecida.
Após permanecer um bom tempo pairada sobre Mármun, a enorme espaçonave começou a descer para seu interior.  Vagarosamente e sem nenhum tipo de ruído ela ia baixando numa perfeita reta vertical bem ao meio da quilométrica falha geológica.  Mais Pegarres chegavam a sua borda para acompanharem aquilo que parecia um espetáculo de hipnose coletiva.  Cada metro de descida era acompanhado pelos olhares curiosos que viram a gigantesca nave diminuindo de tamanho conforme ia descendo pelo desfiladeiro.  A descida deu-se numa profundidade tamanha que a colossal estrutura tornou-se um pontinho insignificante que sumiu na escuridão do desconhecido.
Os Pegarres entreolharam-se e ficaram aguardando o próximo acontecimento.  Aguardaram por  muito tempo e nada sucedia.  Alguns chegaram a cogitar a devastação da flora, no fundo de Mármun, em dimensões proporcionais da nave com aquilo que seria o seu extrator magnético de substâncias.  Temiam que após a exploração no subsolo, tal barbárie passasse para a superfície.
De repente o solo começou a tremer.  Os Pegarres ficaram assustados e a mercê do leve tremer que chacoalhava seus corpos e tudo mais.  Sem nenhum motivo aparente, começou a brotar do interior de Mármun uma neblina esverdeada.  Rapidamente o leve tremor transformou-se num forte terremoto que não estava causando nenhum grande dano, mas levava ao chão todos os nativos que não conseguiam mais equilibrar-se em pé.  A neblina esverdeada tornou-se uma densa coluna de fumaça de um verde escuro que em poucos instantes elevou-se a altura inimaginável no céu.  O tremor estava sendo sentido por todo o planeta.  A densa fumaça esverdeada saía em tal quantidade que acabou por tomar todo o céu de Bohunt.  Até mesmo no oposto do globo o céu se esverdeou.  Depois de muito tempo de intensos espasmos o terremoto foi se esvaindo até findar-se por completo.  Nenhuma fissura abriu-se no solo.  Ao olhar para dentro do Mármun, os Pegarres não conseguiam distinguir nenhuma diferença de antes.  Porém, algo estava mudado.  O céu de todo o planeta Bohunt, que antes era azulado, agora apresentava uma coloração verde.  Se aquele povo possuísse tecnologia para medir o nível de clorofila no ar, certamente iria registrar um crescimento significativo na concentração.  Aquilo permaneceu como uma nova constante para a natureza Bohunt e indiferente do conhecimento de seus nativos, agia como uma nova camada protetora daquele globo e cintilava pelo céu verde como uma aurora boreal estendida de um horizonte a outro.
Os dias se passaram.  As estações se passaram e nada mais saiu de Mármun.  Nenhum sinal da nave alienígena ou de qualquer outra característica Nortame veio à tona.  Aqueles humanóides esverdeados ficaram a se perguntar o que houve com os quadrúpedes.  Na verdade, eles jamais teriam essa resposta.  Nem o Quesine com todo seu conhecimento acumulado de gerações inteiras sabia explicar o que passou-se dentro de Mármun naquele dia que desde então passou a ser chamado pelos Pegarres como o dia Emílp.  Mas o que eles mais questionavam era o porque de existir aquele tipo de atitude dos invasores.  Para a exploração de um povo e de seus bens naturais seria mesmo necessário que aquilo se desse de maneira totalmente irracional?  Não seria possível o alcance da tecnologia avançada com a efetividade de uma exploração de recursos manejada com sustentabilidade?  E quanto à força bruta?  Será que sempre existirá exploração do mais forte sobre o mais fraco?  Não seria possível que tais questões se resolvessem de maneira diplomática onde jamais seria preciso a força física?  Essas questões passaram a ser discutidas pelos Pegarres e tudo passou a ser narrado para as gerações seguintes, assim como a narração de como o céu de Bohunt tornara-se verde e como o povo Pegarre descobriu a enorme força do trabalho de reação em conjunto no dia Emílp.  Não demorou para os Pegarres voltarem à suas rotinas passivas de antes.  Deste modo, eles nunca mais foram incomodados novamente por qualquer raça alheia.  Contudo, a sapiência daquele povo agora estava respaldada pela cólera contra injustiças que lhes ensinara a lutarem juntos pela terra e pela paz que lhes era de direito, a paz verde.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Quando Somos Usados


Quando a arte de algum autor começa a ser usada como propaganda, ilustração, citação ou mesmo objeto de debate, passa a ser referência de seu legado.  Uma das piores coisas que existem no mundo artístico são as explanações (as vezes deturpadoras, demagogas, oportunistas e impertinentes) de uma raça conhecida como “crítico de arte”.  É incrível como podem usar seu poder de verborragia para formarem opinião, criarem intrigas ou tentar se fazerem mais importantes do que os autores com suas criações.  Em contra partida, quando existe a referência como homenagem ou exemplificação, o processo se inverte e torna-se motivo de lisonjeio por ser um reconhecimento mesmo que sutil.
Abaixo a capa do folder de um dos eventos do Clube Dos Quadrinheiros onde foi usado um quadrinho da HQ de minha criação que eu mais gosto.


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Na Faculdade


Entrei pra faculdade Martha Falcão no ano de 2000.  Em 2004 eu meu formei Bacharel em Administração com Habilitação em Gestão Ambiental.  Tenho carteira e cadastro no Conselho Regional de Administração e por incrível que pareça estou em dias.
Nesses anos que fiz faculdade, fui aluno exemplar (pra não dizer C.D.F.).  Em quatro anos tive menos de 10 faltas, era o primeiro a levantar o braço quando os professore pediam voluntários, colaborava constantemente com idéias, dúvidas e sugestões, sentava sempre na primeira fila e minha média de notas era 8.  Muitos colegas de classe gostavam de fazer trabalho em grupo comigo, porque eu fazia questão de fazer o trabalho sozinho pra caprichar no perfeccionismo e garantir a nota máxima.  Também cheguei a fazer Monitoria de Disciplina (visando desconto nas mensalidades) em duas disciplinas.  Devido a isso tinha de estudar mais do que os demais pra auxiliar os professores e tirar dúvidas de colegas.  Na época eu ainda fumava maconha e não era raro eu ir pra aula chapado.  Fazer prova de Matemática Financeira alucinado de maconha me era uma experiência brilhante.  Minha mente fervilhava e eu sempre garantia nota boa.  Sem levar em conta o meu visual punk/rockabilly que chamava a atenção de todos.
Numa das Semanas do Administrador eu fui convidado a apresentar como âncora um dos dias.  Meio contra minha vontade acabei aceitando.  Apresentei de terno, mas com uma mecha do grande topete que eu tinha exposta.
Numa aula de Direito, eu pedi o tempo da professora pra explanar um assunto relevante com a turma.  Não disse do que se tratava, mas a professora acabou concordando.  Dei um discurso de meia hora pregando a descriminalização da maconha.  Enquanto a turma e a professora escutavam tudo boquiabertos, preenchi o quadro com gráficos, dados estatísticos e levei conceituadas revistas e jornais pra provar meu embasamento depois abrindo pra tirar dúvidas dos presentes.  Lógico que depois de meu falatório, a professora deu aquele contra argumento conservador, mas já era tarde, meu papel estava feito e eu dormiria tranqüilo por muitas noites.
Uma das coisas que eu mais gostava, era que a Habilitação em Gestão Ambiental me proporcionava a oportunidade de muitas aulas em campo.  Conheci a ilha da Marchantaria, Anavilhanas, a reserva Ducke e muitos outros lugares legais.  Uma visita técnica dessas foi simplesmente inesquecível.  Fomos pra um igarapé em Presidente Figueiredo.  Entramos todos na água e enquanto íamos subindo o rio por dentro de seu leito, o saudoso professor Romero Mousinho (que os deuses o tenham) ia dando a aula.
Abaixo uma foto da aula técnica na reserva Ducke.  Eu de camiseta branca a direta, segurava a bandeja que o professor Romero Mousinho, a esquerda de camisa azul, despejava amostras do que ia colhendo pela trilha pra explicar depois tecnicamente cada item.



Um dia a direção me encomendou um trabalho free lance pra capa do folder da II Semana do Administrador.  Fiz o serviço em parceria com meu amigo Marcelo Mota.  O dinheiro que ganhamos com o trabalho foi todo fumado no extinto Eco’s Bar.  Ficamos muito satisfeitos.  O resultado (uma manipulação na logomarca da Administração), que também foi usado em banner e camisetas, apresento aqui abaixo.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Trailer Entre Papéis e Nanquins

Como forma de denunciar o descaso das estudantes de jornalismo que fizeram o documentário “Entre Papéis e Nankins – O Clube Dos Quadrinheiros” e não deram satisfação nenhuma após aprontarem o vídeo, postei um comentário no You Tube. Dois dias depois o comentário foi removido. Reescrevi o comentário, salvei-o e postei novamente. Desde então eles eram sempre removidos e eu tinha de postá-los novamente. Mas como já o tinha salvo, não me era trabalhoso. Logo, postei junto um segundo comentário alertando que a denúncia estava sendo apagada. Imediatamente duas delas postaram os seus devidos comentários, pedindo milhares de desculpas, dizendo que estavam com uma cópia do vídeo em DVD pra me entregarem, que estavam removendo meus comentários porque iriam falar comigo pessoalmente, que eu tinha sido crucial pra realização do vídeo, pediram meus contatos (pura hipocrisia para os leitores dos comentários, pois quase todas elas teem vários contatos meus) etc. Passei meus contatos. Já se passou muito tempo e até agora não fizeram nenhum tipo de contato comigo. Porém, estou satisfeito com os pedidos de desculpas postados. Sinceramente eu prefiro uma forma de satisfação e respeito a um DVD. Como se desculparam publicamente (mesmo que na hipocrisia), então tudo bem.
Não sei o motivo (como sempre não sabemos de nada) o vídeo foi retirado do You Tube. Restou online somente o trailer com uma legenda falando de um prêmio que elas receberam com o vídeo. Até hoje também não nos deram nenhum tipo de satisfação sobre esse prêmio que elas receberam. Não quero nada do que elas ganharam, mas a satisfação seria o mínimo de respeito para conosco.
Abaixo o tal trailer.


domingo, 17 de outubro de 2010

Nankin De Terceiros


É muito interessante ser retratado inesperadamente por amigos.  Algumas vezes em minha vida, pela influência punk e rocakbilly, usei visual chamativo e vivi experiências mitológicas.  Com peculiaridades marcantes, não é de se estranhar que sejamos enquadrados como personagens de histórias em quadrinhos ou mesmo de filmes e desenhos animados.  Certa vez atuei como ator convidado num filme trash chamado “O Caçador de Vampiros da Compensa” do grupo “Hyper Filmes” (sub-grupo originado do grupo “Hyper Comix”, dissidente do Clube Dos Quadrinheiros De Manaus).  Fiz o papel do vilão principal por ostentar um topete de um palmo de tamanho.  Tratava-se de uma paródia à produção hollywoodiana “Blade – O Caçador De Vampiros”.  Era pra ser um curta metragem, mas nos empolgamos nas filmagens e acabou por virar um média metragem.  Até hoje eu nunca assisti ao filme, mas ele existe e deve ser bem engraçado, além de muito tosco.
Abaixo uma filipeta sobre o “Arte Na Praça”, desenhado por Adriano Furtado.  Gostei de minha retratação por eu aparentar um semblante sinistro e mal encarado.  Geralmente os mocinhos são protótipos conservadores e de personalidade imbecil.  Por isso me identifico mais com os vilões que possuem caráter notável.



Aqui o refinado traço de Rogério Romahs, no último quadrinho de uma HQ, retrata Mayr Mendes, Marco Roberto (ou Túlio Flávius Fabrícius) e eu.