Auto biografia artística virtual. Registros de eventos, resenhas, crônicas, contos, poesia marginal e histórias vividas. Tudo autoral. Quando não, os créditos serão dados.

Qualquer semelhança com a realidade é verdade mesmo.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

1ª Moral

Tudo que ela desejava era que aquele pesadelo terminasse o mais rápido possível. Já tinha perdido a noção de tempo e não sabia quantos dias estava cativa, mesmo porque também não sabia por quanto tempo havia ficado desacordada, desde que fora abordada. A desorientação lhe era tão pavorosa quanto a violência a que fora submetida
Sua mão enfaixada com o curativo imundo, já não doia tanto. Tinham-lhe cortado um dedo mindinho, para comprovar a seus familiares a seriedade daquele sequestro. Havia sido estuprada por várias vezes e abalada com tudo, já não passava horas chorando, como no primeiro dia da tragédia que estava vivendo. Aquele terror era real, inimaginável antes, mas surpreendentemente real.
O cativeiro era escuro, com apenas uma fresta no teto brotando iluminação natural do céu. Só através deste orifício de centímetros é que tinha noção de ser dia ou noite.
Quando a porta se abria, era pra receber água ou comida de seus sequestradores que, devido a sua higiene precária, já não levantavam interesse em outros estupros. Por isso, tinha um certo gosto pelo fedor e não se limpava mais, de suas necessidades fisiológicas realizadas num dos cantos do ambiente.
Suor encharcante; ceroto preto espalhado por toda pele que estava salpicada com ferradas de muitos insetos; coceira constante; unhas quebradas; cabelo embaraçado recheado de pulgas e piolhos; dores nas articulações; alguns hematomas nos membros; fome ininterrupta; sensação febril e a forte enxaqueca completavam aquilo que contrastava inquestionavelmente com a sua outrora pacata e divertida vida de shopping, faculdade, carro e iphone.
Baratas, ratos e diversos outros bichos nojentos eram tão presentes, que já não causavam mais repulsa. Não conseguia dormir direito, porque tinha que ficar espantando estas mazelas que teimavam em tentar mordiscar sua mão, atraídos pelo odor do sangue coagulado.
Ainda tinha esperanças de sair dalí, porque na realidade fincanceira de seus pais, sabia que qualquer quantia poderia ser paga, por sua vida. Tinha fé em Deus e rezava em voz baixa, constantemente, desde que fora jogada alí naquele inferno fedido e sombrio. A reza alí, por mais ingênua que possa lhe parecer, lhe confortava num placebo consolador.
Pela fresta no teto, sabia que era manhã, pois não havia muito que estava escuro.
Com muita sede, estava sentada no chão, encostada na parede, no meio de uma reza, quando escutou baruho da porta destrancando. Viu ela se abrindo e recebeu a iluminação externa em sua face.
Antes de seus olhos se acostumarem com a claridade, percebeu um homem corpulento caindo em sua frente, por ter sido empurrado, por alguém mais, atrás dele.
O homem gemia sem parar, devido a um ferimento a bala em seu joelho direito, e falou entre seus gemidos:
- Pronto! Tá aqui ela! Não me mate! Por favor, não me mate!
Em seguida, adentrou-se a outra pessoa, que era outro homem corpulento, todo trajado de preto, com capuz na cabeça e empunhava uma pistola automática com silenciador.
- Ei, você está bem? - Perguntou ele, sem deixar de apontar a arma para o sequestrador caído.
Ela só confirmou positivamente com a cabeça, enquanto brotavam em seu rosto lágrimas e um sorriso, por ter sido agraciada em suas preces pela salvação eminente.
Enquanto o homem caído gemia com as mãos sobre o joelho o outro disse a ela:
- Tudo bem! Vamos já sair daqui! Fique tranquila que você vai pra casa agora!
Assim que terminou de falar isso, sua cabeça explodiu em sangue, junto com o estrondo ensurdecedor de um tiro. Seu corpo balanceou e ele caiu no chão, sem nenhum vestígio de vida.
Ela perdeu o sorriso e seu choro aumentou, com um grito entre soluços:
- Nããããooo!
Enquanto ela chorava compulsivamente, um terceiro homem entrou no ambiente com uma arma em punho, soltando um pequeno fio de fumaça do cano. O homem era muito mal encarado, mal trajado, magro, com barba por fazer e olhos esbugalhados. Logo que adentrou totalmente no recinto, disse para o primeiro caído:
- Esse mercenário deve ser muito burro, pra pensar que só uma pessoa faria o sequestro. Levanta, S4! Vai cuidar do teu joelho. Deixa que eu me livro do corpo desse filho da puta. Vamos ter de sair daqui logo, porque se esse otário descobriu a gente, não vai demorar pra aparecer outro aqui. A família dessa vagabunda tem grana pra pagar um exército de mercenários, mas tá enrolando pra pagar pela filha.
Desesperada, a garota começou a se levantar na direção do homem armado, gritando em seu pranto:
- Nãããoooo! Me deixa sair daqui!
Antes que ficasse totalmente em pé, o homem mal encarado mirou sua arma pra cabeça da moça e atirou.
Outro estrondo ensurdecedor, calou de vez a rapariga que caiu sem vida no chão, faltando um pedaço de sua cabeça.
- Essa puta, bem que podia ficar quieta. Agora vamos ter que manter ela no gelo, pra ir cortando os pedaços dela, até que paguem o resgate.
- Levanta logo, S4! Temos muito trabalho a fazer. - Terminou de falar, colocando a arma na cintura, pegando um dos cadáveres pra carregar.


Moral da história: por pior que seja a situação, sempre haverá a possibilidade de piorar mais ainda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário