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Qualquer semelhança com a realidade é verdade mesmo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Tragédia Hematófaga

Faltam poucos anos pra minha aposentadoria.  Portanto, um caso como este me servirá apenas como cumprimento de rotina e não deverá ser algo de periculosidade relevante.  Sua natureza, na verdade é bem comum nesse tempo de aliciações, comércio sexual e trabalho escravo.  Sumiço de pessoas.  O estranho é que as ocorrências parecem suceder num teatro, de uns tempos pra cá.  Outra curiosidade é que dificilmente se trata de aliciação com fins sexuais, devido a todas as vítimas terem idades incompatíveis e serem de ambos os sexos.  Único padrão é que todas estavam desacompanhadas ao saírem de casa, algumas como destino certo do teatro.  Outro detalhe importante a ser levado em consideração é que os sumiços passaram a se dar somente com a estréia de uma peça nova.  O teatro é idôneo.  Porém, seu proprietário o alugou com bastante ingenuidade pra essa companhia de nômades que chegou pouco tempo na cidade.  A companhia faz questão de ministrar toda a produção de manutenção da casa durante a exibição do espetáculo.  Desde portaria, segurança, bomboniere até faxina.  Absolutamente nenhuma pessoa, que não faça parte da equipe, presta serviço no prédio durante a peça.  Mas como os tributos são sempre pagos adiantados e nenhuma irregularidade foi constatada, com a exceção desses desaparecimentos no entorno, os produtores agem dentro da legalidade.
A peça está em cartaz um pouco menos de um mês e treze pessoas já desapareceram desde então.  Tanto produtores quanto atores são anônimos, mas todos teem ficha limpa, perante os sistemas checados.  A ligação é que toda a equipe é composta de cinquenta pessoas solitárias que não possuem residência fixa, família e viajam de cidade em cidade sobrevivendo unicamente da arte aplicada.  Contudo, não podemos fazer nenhum tipo de acusação, porque não há comprovação de que os sumiços se devem por culpa de algo ou de alguém.  As pistas que temos, é que alguns dos desaparecidos tinham a audiência da peça como último compromisso agendado.  Como fui designado para o caso, a peça teatral certamente é o meu foco principal de investigação.
Conforme o folder de divulgação, é uma tragédia em um só ato que faz uma crítica moderna à nossa sociedade de consumo.  Parece ser uma boa peça.  A crítica local discorreu alguns comentários positivos.  Como tenho muitos vetores para análise, a maioria não vinculados diretamente ao espetáculo, provavelmente terei de assistir várias vezes.  Não necessariamente assistir à peça, mas certamente estar presente várias vezes.  Preciso verificar o máximo de detalhes e comportamentos dos envolvidos.  Com um pouco de sorte, posso conseguir alguma informação segura.
Na primeira noite da semana eu estava lá na fila da bilheteria.  Vestido sempre a paisana, fumava meu cigarro e com aparência ingênua observava tudo e todos como um mero cidadão que só busca um pouco de distração na programação artística da cidade notívaga.  Com minha caneta câmera no bolso de minha camisa, fiz uma rápida filmagem.  Enquanto aguardava minha vez de comprar o ingresso, procurei melhores ângulos pra fazer imagem das pessoas na fila, da bilheteria e dos funcionários na entrada.  Com calma eu analisaria as imagens.  Com essa técnica sempre consigo detectar alguma coisa não percebível no momento.
Já havia entrado no teatro algumas vezes, apesar de não ser frequentador assíduo ou fã desse tipo de arte.  Então já tinha uma visão pré estabelecida do local.  Sentei numa das últimas filas com o intuito de ter uma vista geral do ambiente.  Claro que a iluminação seria penumbra na platéia para valorizar o espetáculo, mas seria possível a realização de algumas imagens boas.
Tocou o sino uma vez.  Faltavam apenas cinco minutos para o início da peça.  Não seria casa cheia, mas havia um bom número de pessoas presentes, a ponto de dificultar a contagem.  Diferente de cinema, o público do teatro sabe que não pode se atrasar.  Atrapalha a concentração dos atores em cena a entrada de atrasados.  Por isso que alguns teatros simplesmente fecham a porta quando se inicia o ato.  Certamente isso se daria ali.  Um funcionário com uma lanterninha posicionado na parte inferior, por trás das últimas filas, supervisionava o público que se alojava em suas poltronas.  Curiosamente não havia ingressos a venda para os camarotes.  Destes, somente um estava sendo ocupado por três homens bem vestidos que simplesmente olhavam todos na platéia.  Sutilmente posicionei minha caneta câmera de modo a fazer imagens destes homens.
Dois toques no sino.  A peça ia começar em alguns segundos.  Vários presentes começaram a desligar o aparelho celular ou a colocar no vibra call.  Logicamente que o meu só é usado neste módulo discreto.
Apagam-se as luzes na platéia, abrem-se as cortinas, o espetáculo começou.
No palco um cenário barato com tapumes pintados com prédios, casas, placas, hidrantes, lixeiras e outros detalhes urbanos expressam uma rua qualquer.  Dois postes de madeira localizados cada um numa lateral, iluminam a cena.
Vinte e quatro atores, de ambos os sexos, compõem o elenco.  Todos vestidos diferentemente de modo a cada um representar um membro distinto da sociedade.  Um padre, um mendigo, uma estudante, um policial, uma gari.  Enfim, havia de tudo.  Alguns caminhavam lentamente de um lado a outro como transeuntes, outros simplesmente conversavam parados com naturalidade.  Uma simples rotina urbana.
Começam as falas.
O mendigo diz ao léu:
- Não suporto mais esse mundo.  Miséria, frio, fome, sede.  Tudo de ruim tenho em abundância.  Enquanto a abundância de outros é de dinheiro, luxo e luxúria.
A gari que estava varrendo o chão, próxima do homem, escutou o lamento e indagou:
- O que pretendes fazer, pobre homem?  Todos nós temos nossas desgraças.
- Minha vida não vale nada para a maioria e muito menos para mim.  Findarei ela. – disse o mendigo enfático.
O policial escutou o diálogo e se aproximou dizendo:
- Não fará isso, meu senhor.  Como profissional da lei impedirei qualquer ato suspeito teu.
Assim continuou o diálogo, posteriormente com outros personagens entrando no colóquio.
Os três homens no camarote estranhamente não olhavam o espetáculo.  Em vez disso direcionavam suas atenções para a platéia de uma maneira muito suspeita.  Aparentavam estarem ali apenas para apreciar o público.  Um deles sacou uma máquina fotográfica e tirou algumas fotos do público em geral de modo a captar a imagem de todos.  Inclusive, tive de ser cauteloso para não demonstrar que estava observando-os.
Postei meus óculos especiais, que é um dos artefatos usados em meu trabalho.  As lentes aparentam normalidade, mas elas não teem graus e na parte interna, tem a metade de cada uma delas espelhadas de modo a me servirem como retrovisores.  Com isso, sem precisar me virar, pude observar a silhueta do homem da lanterninha que estava posicionado na parte inferior do salão, em pé, apenas observando o público.  Ninguém mais dentre a equipe presente.
Com cerca de uma hora de espetáculo os atores, em seu diálogo, chegam ao consenso de que se existe um culpado pelas questões levantadas pelo mendigo no início da peça, deve-se à classe dominante que manipula as leis, a opinião pública em prol de seus interesses de concentração de renda.  Reconhecido este consenso, um canhão de luz foca o centro do cenário, rufam tambores e dentre os tapumes com as imagens de prédios, entra em cena uma personagem nova.  Uma mulher trajando um lindo vestido social com uma maquiagem dourada escondendo sua verdadeira face.  Seus cabelos também dourados e sua postura arrogante impõem destaque.  E sua fala é em forte tom:
- Meros mortais, eu sou a elite que incomodada com seus reclames, vim demonstrar o quão sou poderosa sobre vocês.  Não podem fazer nada contra meu reinado que já vem de séculos e se fortalece a cada dia nesse mundo.
Começa uma batalha de argumentos entre da senhora Elite impondo seu imperialismo com os demais personagens representantes da sociedade.  Uma previsível plasticidade da diferença entre as classes sociais, aqui explorada de forma personificada sem vulgaridade ou apelo emocional.
O trio no camarote agora apresenta algo de diferente.  Eles parecem estáticos.
Atinei que eles miram alguém dentre o público.
Não está lotado então é fácil perceber que eles atentam para um jovem que cochila em sua poltrona.  Está certo que a peça não apresenta muita ação e como estamos em fim de horário comercial em dia útil, provavelmente o jovem está cansado por ter vindo de alguma sala de aula ou labuta de trabalho.  Mas é estranho como ele chama a atenção dos homens do camarote que agora se concentram exclusivamente no rapaz.  Chegando a fotografar o sonolento.
Um operário como personagem grita para os demais no palco:
- Vamos mudar a situação!  Juntando nossas forças, poderemos dominar a Elite e tomar de volta toda a riqueza que ela extraiu de nós e de nossos antepassados durante todo esse tempo.
O alerta parece surtir efeito dominó e gera euforia nos outros.  O policial adianta-se aumentando a aflição:
- Darei o apoio militar.  Com armas ficaremos potentes para tel domínio.
Todos cercam a senhora Elite que não demonstra resistência nenhuma do complô social.  Alguns a seguram pelos braços como se precisassem impedir alguma tentativa de fuga.
No meio do palco, surge erguendo-se de um alçapão no chão uma espécie de caixão com várias mangueiras conectadas a ele.  Os personagens ensandecidos gritando palavras e frases de ordem aleatoriamente, conduzem a senhora Elite para o caixão sem nenhum tipo de reação aparente.  Colocam-na dentro do caixão e fecham-no.
Mesmo com o alvoroço em palco, o jovem continua cochilando na poltrona e os três homens no camarote ainda o observam, mas sem tanto interesse como antes.
- Beberemos toda a essência da burguesia.  Absorveremos de volta toda riqueza nos tirada por pura ganância. – grita a personagem estudante.
Cada um em palco apanha uma das mangueiras e leva a boca.  Como se tratam de mangueiras transparentes, é possível ver um líquido vermelho percorrer o tubo e ser ingerido por cada um.  Eles passam a beber com gana o líquido como um alimento aquoso.  Talvez seja um suco de groselha ou algo assim.
Um manto cobre a parte inferior do caixão até o chão, então certamente a personagem da senhora Elite já não se encontra mais na mórbida caixa.
Após fartarem-se com cada gota sorvida, a gari emiti uma fala erguendo um punho fechado para o alto:
- Satisfeitos com nossas conquistas, estamos fortificados.  Reinaremos plenamente e jamais deixaremos que volte a haver diferenças sociais.  Eliminaremos a fome e todo ser humano na face da Terra terá a sua parte que lhe é de direito.
Todos os demais erguem os punhos fechados para o ar e gritam euforicamente vários “vivas”, “bravos” e outras palavras de confirmação.  As cortinas se fecham e todos aplaudem.
Fim de espetáculo.
As luzes se acendem e várias pessoas aplaudem de pé os atores que voltam ao palco para cumprimentarem o público.  Vários deles ainda limpando os beiços pela bebida ingerida.  Senhora Elite também vem receber os aplausos.  Após alguns breves minutos, eles se recolhem para os bastidores.  As pessoas começam a se recolher em direção à saída do teatro.
Dou uma olhada geral em todos e não percebo nada de anormal.  O rapaz que cochilava, agora parece estar em sono pesado, mas o homem da lanterninha já está posicionado na lateral da fileira de cadeiras onde o dorminhoco se aconchegou.  Certamente o funcionário está apenas esperando todos saírem para assessorar o rapaz.
No hall principal que dá acesso à entrada e saída, tudo tranqüilo.  Alguns funcionários acompanham a o tráfego das pessoas, dando agradecimentos sutis, ora dizendo um “obrigado” ou um “volte sempre”, ora apenas movendo a cabeça como reverência.  Uma funcionária trajada de faxineira aguarda a saída de todos com uma vassoura para realizar a limpeza do local.
Na área externa, dou uma parada estratégica na frente do teatro.  Tiro meu celular e finjo estar verificando alguma informação nele, enquanto realizo algumas fotos com minha caneta câmera.  Algumas pessoas comentam a peça que acabaram de assistir, outras falam de assuntos cotidianos, uns simplesmente não falam nada e acendem cigarros, puxam celulares ou chaves de carro.  Acendo um cigarro pra ganhar mais tempo.  Após uns vinte minutos, todos já se retiraram e as portas do estabelecimento são fechadas.
Atravesso a rua, caminho mais uns dez metros e entro em meu carro.  Lá dentro, aguardo a saída dos funcionários pra ver se há algo fora do normal.  O insulfilm protege minha vigília que é mais uma etapa de meu trabalho.  Meia hora se passa até que os funcionários começam a sair.  Alguns entram em seus carros que se encontravam estacionados por ali, outros pegam táxis e alguns poucos saem a pé.  Todos aparentam destinos distintos e o único fato um tanto estranho é a atitude de não haver nenhum tipo de diálogo entre eles.  Nenhuma despedida e nenhum “boa noite” sequer.  Seria o cansaço do final de expediente?  Não sei, mas creio que isso não é nada de muita significância.
Ligo meu carro e vou pro meu apartamento, passar as imagens para meu computador, fazer back up num CD, tomar um banho, comer algo e finalmente descansar.
No dia seguinte ligo o computador e começo a olhar todas as fotos com bastante calma.  Em cada uma, dedico vários minutos e analiso tudo.  O ambiente com seus componentes, as pessoas no que estão fazendo e em como estão fazendo, suas expressões faciais, suas peculiaridades.  Tudo é verificado.  Como detetive experiente que consegue farejar o crime no ar, sinto que há alguma coisa de inquietante nos funcionários envolvidos na produção da peça.  Algum segredo latente que fica evidente em seus semblantes.  Pode até parecer paranóia de minha parte, mas pra mim eles ainda guardam algum segredo.  E esses homens no camarote provavelmente são o epicentro desta incógnita.  Parece que confabulam uma perversidade macabra.
Ao anoitecer chego cedo para o espetáculo.  Estaciono meu carro uns vinte metros de distância e sempre no outro lado da rua.  Tiro umas poucas fotos da frente do teatro pra registrar o movimento inicial, saio do carro quando ninguém olha em minha direção e me dirijo para a fila da bilheteria.  Como ainda é cedo, poucas pessoas compram ingressos.  Na bilheteria um homem de certa idade.  A moça da noite anterior deve ter faltado ao serviço.
Com o bilhete na mão me dirijo para o hall de entrada, mas a catraca ainda não foi liberada, devido ao horário.  Isso me foi calculado pra que eu verifique todos aqui no hall, antes mesmo de entrar no saguão principal do teatro.  O rapaz que está atendendo na bomboniere do hall não é o mesmo da noite anterior.  Tenho certeza que ele parece um dos que estava em cena e que teve poucas falas.  Porque um dos atores não participaria da peça para servir de atendente na bomboniere?  Uma boa pergunta.
Casais, estudantes universitários, amigos solteiros e outros estereótipos começam a se amontoar no hall, olhando os cartazes de peças enquadrados nas paredes enquanto a entrada não é liberada.  Uma moça com trajes de faxineira sai de um dos banheiros carregando utensílios de higiene.  Reconheço-a imediatamente.  É a mesma que interpretou na noite passada o papel da senhora Elite.  Certamente que a maquiagem e o figurino fazem grande diferença e agora ninguém, com a minha exceção, chega a percebê-la.  Isso é muito estranho.  Porque a atriz de suma importância na peça estaria agora como faxineira do local, sendo que a peça ainda será encenada nessa noite?  Um detalhe é que ela não demonstra insatisfação por estar exercendo agora um cargo com bem menos glamour do que o da noite anterior.  Isso merece foto.
Finalmente chega a hora de entrar.  A catraca é liberada e por outro funcionário totalmente diferente do que estava de prontidão na entrada na noite anterior.  Este parece ser um dos homens bens vestidos que estavam no camarote.  Um rápido movimento na caneta no bolso e eu garanto uma foto deste homem.
Sento-me novamente numa das últimas cadeiras dentre as últimas fileiras e faço minhas fotos.  Agora quem está com a função de orientador com a lanterninha é uma mulher.  Também uma das que estava em cena.  Será que mudaram todo o elenco?  Porque fariam isso?  Pelo menos terei muito mais fotos pra estudar nas próximas horas.  O caso está ficando intrigante mesmo.
Toca-se o sino.  Em breve começará o ato.
Já temos as pessoas no camarote.  Como suspeitei, outras três diferentes da noite anterior.  Agora temos uma mulher dentre os três.  Todos eles eram atores na peça.  Como esperado, muito bem trajados e com a atenção totalmente voltada para as pessoas na platéia.  Vez ou outra cochicham algo entre si e parecem estar em análise constante às pessoas presentes.  Também tirando fotografias da platéia.
Dois toques no sino.  O espetáculo começará.
Apagam-se as luzes e abrem-se as cortinas.
No palco o mesmo cenário, a mesma iluminação e os mesmos personagens, mas como previsto, outros atores.  Todos mudados, nenhum repetido.  Um ato muito corajoso o de mudar todos o elenco de um dia para o outro.  Agora entendo o porque do nome dos atores não serem divulgados dentre o material de propaganda.  Eles já tinham a mudança como planejado.  A questão é “porque?”.  Começam as falas e o texto é o mesmo.  Muito estranho isso tudo.
E os três elementos no camarote mantendo suas atenções voltadas para o público.  Como se pra eles não existisse espetáculo.  Parece mais que o espetáculo é a própria platéia.  Tudo soa como um enigma bastante instigante, prestes a se mostrar como um sinistro quebra cabeças.
Ponho novamente meus óculos com a parte interna das lentes espelhadas e lá está a mulher da lanterninha a postos, como uma sentinela, apenas observando as pessoas sentadas.  Uma verdadeira divindade tomando conta de seus cordeiros no rebanho pronto pra ser abatido.
Posso bolar um disfarce e me infiltrar entre essas pessoas pra uma investigação mais apurada e personalizada.  Talvez um supervisor sanitário.  Isso não me é difícil e já o fiz por várias ocasiões diferentes.  Sempre tem um resultado positivo e com os aparatos tecnológicos disponíveis hoje, praticamente nunca sou reconhecido.  Na verdade estou na grande vantagem sobre eles, porque eu sei da existência deles e eles não sabem da minha.  Agora mesmo estou totalmente diferente de ontem.  Mudei o estilo de figurino e o penteado.  Amanhã também mudarei isso tudo e ainda acrescentarei uma maquiagem.  Num outro dia já poderei mudar a cor de meu cabelo ou colocar um bigode postiço.  Enfim, procuro estar invisível quantas vezes me for necessário.
Chegou a hora da entrada da senhora Elite.  Como esperado, outra atriz.  Esta bem mais baixa que a anterior, mas com as mesmas vestes e a mesma maquiagem.  Os personagens os mesmos, mas os atores não.  Que maluquice.
Antes do término meu celular toca no vibra call.  Verifico no identificador de chamadas que se trata do Comandante Geral.  Ele só me liga caso esteja precisando urgentemente de mim ou no caso de precisar me passar imediatamente relevantes informações sobre o caso em que trabalho no momento.  Retiro-me para o toalete a fim de retornar a ligação.  Uma interrupção necessária em meu serviço.
Não reparei se perceberam em minha saída, mas com certeza, no mínimo, a mulher da lanterninha notou.
Entro no toalete masculino e posiciono-me frente a um sanitário urinário, como se eu fosse mesmo praticar o ato.  Puxo o celular e disco para o número da última chamada recebida.  O toque chama duas vezes e ao atenderem digo conciso:
- Pronto, chefe.  O que houve?
- Temos outro desaparecido.  Provavelmente pertencente a seu caso, pois foi exatamente na mesma região dos demais desaparecidos.  Mesmo lugar de execução do seu caso. – disse ele.
- Quando foi o sumiço? – Pergunto.
Meu chefe responde instantaneamente:
- Exatamente vinte e quatro horas atrás.  A mãe da vítima que veio relatar o sumiço.  É um rapaz de vinte e cinco anos de idade, branco, cabelos louros encaracolados, marcas de espinhas na cara, barba por fazer e porte atlético.  A mãe é categórica em dizer que o filho não bebe, não tem vícios, não costuma dormir fora de casa e o que é mais interessante... ...Gosta de cinema e teatro.  A mãe também diz que ele pode ter saído do trabalho e se dirigido diretamente para assistir algum filme num cinema ou peça em teatro.  Isso é o que ele gosta de fazer como lazer.
Rapidamente eu ligo a descrição dada com o rapaz dorminhoco da noite anterior.  Neste momento em que percebo que não lembro de tê-lo visto sair do teatro em nenhum momento.
Como pude ser relapso quanto a isto?  Talvez se eu tivesse interferido no sono deste rapaz, ele não teria sumido.  Talvez ele já esteja até mesmo morto.
Passei alguns breves segundos refletindo sobre minha falha e antes que meu raciocínio funcionasse para uma resposta a meu chefe, senti uma forte pancada em minha nuca.
Apaguei numa escuridão com estrelas de dor.
Não sei quanto tempo eu passei inconsciente porque acordei dopado e certamente estive drogado por muitas horas.  Meus olhos abriram.  Eu escutava tudo a meu redor, mas não podia me mexer nem sequer movimentar minha boca pra falar algo.  Não estava amarrado, mas totalmente paralisado.  Minha cabeça ainda dói muito.  Acertaram-me pra valer.
O ambiente é escuro, estou jogado num colchão fedido a barata e mofo.  A luz do ambiente se acende e entram no cômodo dois homens.  Reconheço ambos.  Dois integrantes da equipe teatral.  Um deles envolve meu rosto com uma das mãos e olha bem nos meus olhos.  O segundo por trás deste pergunta:
- Como está ele?
O homem me analisando responde:
- Está bem.  Acordou, mas não será preciso outra dose pra mantê-lo imobilizado.
- Então vamos levá-lo ao bebedouro.  Está na hora de saciar a sede de nossos amigos. – falou seu parceiro.
Eles me carregam como um fardo e enquanto faziam o transporte conversam:
- E pra amanhã, já temos o que beber?  Amanhã será nossa vez de beber.
- Claro!  Você sabe que temos de ter sempre um escolhido por noite.  Parece que pra amanhã teremos uma ruivinha que está desacompanhada na platéia.
Ambos sorriem de modo bem macabro.
Sou levado pra uma espécie de porão onde há um tipo de plataforma com um sistema de suspensão.  Um outro homem da equipe aguardava no lugar e disse para os que me carregavam:
- Bem na hora.  Ela já está descendo.
A plataforma desceu e nela estava deitada a senhora Elite que se levantou sem nada dizer, assim que alcançou a altura de uma cama.  Levantou-se e retirou-se pela porta por onde eu fui trazido.  Os homens me colocam deitado na plataforma, exatamente dentro de uma marcação gráfica de um corpo onde minha anatomia é categoricamente alinhada e acionam um mecanismo que começa a levantar meu leito.  Antes de perdê-los de minha vista ainda escuto-os falar:
- Parece que esse daí era o policial que estava nos investigando.
- Então é por isso que nossa viagem foi antecipada pra amanhã.  Agora esse desgraçado só vai investigar no inferno.
Ambos riem gargalhando e meu campo de visão passa a vislumbrar outra coisa.  Vejo-me no interior de uma espécie de caixão.  Exatamente aquele que fica no palco.  Agora já começo a entender tudo.  De algumas frestas minúsculas, percebo que estou em cena.  Vejo a platéia mirando a caixa onde estou inserido.  Mas eles não me enxergam em minha letargia quase inconsciente.
De repente sinto dores me meu corpo.  Com o canto dos olhos noto várias grossas agulhas penetrando minha pele em vários pontos de meu corpo.  A dor é enorme, mas não tenho como gritar, me mover ou mesmo gemer.  Não posso reagir de nenhuma maneira.
Escuto a fala da atriz que interpreta a estudante no palco:
- Beberemos toda a essência da burguesia.  Absorveremos de volta toda riqueza nos tirada por pura ganância.
Consigo ver ainda alguns personagens colocando as mangueiras em suas bocas.  O que vejo em seguida me é de um pavor alucinante.  Eles começam a beber o líquido vermelho que agora compreendo ser o meu sangue.  Sinto o formigar em várias partes de meu corpo e esse combustível da vida agora me sendo tirado aos poucos.  Tento me mover, mas não consigo nada.
Um frio congelante começa a tomar todo meu organismo e antes que eu feche meus olhos pra sempre, escuto as palmas incessantes do público e várias vozes gritando “bravo”.

2 comentários:

  1. Este conto escrevi inspirado em Edgar Allan Poe. Duvido que alguém o leia todo.

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