Auto biografia artística virtual. Registros de eventos, resenhas, crônicas, contos, poesia marginal e histórias vividas. Tudo autoral. Quando não, os créditos serão dados.

Qualquer semelhança com a realidade é verdade mesmo.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O Que É Punk

Há mais de três décadas atrás, a editora Brasiliense lançava o primeiro volume de uma coleção que viria a ser um grande sucesso de vendas. Primeiros Passos se tornou uma série de livros referencial para muitos leitores e principalmente para estudantes que na época, privados de internet, gozavam de uma escassez imensurável de informações. Logo, um livro em formato de bolso que se apresentava sucinto em cada assunto por edição, veio suprir esta demanda de dados. Dentre os vários assuntos abordados, evidente que a cultura pop estaria presente. Retratando muito bem as tendências do momento, o jornalista Antonio Bivar seria convidado a escrever uma pérola da literatura musical brasileira. O Que É Punk.
Capa do clássico livreto de Antonio Bivar
Com uma pegada totalmente didática, o autor começa o livro introduzindo o leitor no contexto histórico do mundo contemporâneo. A política, a economia, a serenidade que prevaleceu pós-segunda guerra mundial com a chamada guerra fria, a moda e a indústria cultural. No Brasil, a decadência de um regime militar autoritário que suprimia a classe média e a instabilidade monetária frente a uma inflação em ascensão. No cenário musical, o modismo ditado pela dance music e o tédio narcisista do rock progressivo. Tudo isso acumulado com o excesso de testosterona, fez o jovem regurgitar o que conhecemos como punk rock. Reconhecendo a criação do movimento nos Estados Unidos, mas aceitando seu desenvolvimento na Inglaterra, Bivar traça um panorama plástico citando muitas bandas, músicas, fanzines, eventos marcantes e acontecimentos de bastidores que viriam ilustrar toda uma geração subversiva que assustou o mainstream vigente. Sex Pistols, Ramones, New York Dolls, Stooges, Damned, dentre outros grandes nomes, compõem a história verídica narrada. Nas terras da banana, Olho Seco, Inocentes, Restos de Nada, Condutores de Cadáver, Garotos Podres são algumas das citadas. Nomes pessoais como Fábio Sampaio, Clemente Nascimento e Kid Vinil, também protagonizam o texto com suas máximas e em seus pontos de encontro.
A cada dia que passa, percebe-se a necessidade de uma reedição atualizada da dissertação. A editora Brasiliense, bem que poderia fechar este contrato com Antonio Bivar, enquanto este ainda é vivo. A mesma ainda publica a série, inclusive com títulos novos. A coleção, como um todo e em edições separadas, já foi disponibilizada para download gratuito, mas não é difícil de se encontrar seus volumes nos sebos e livrarias das cidades.
Não é um profundo estudo com análise psicológica comportamental e estudos de caso exemplificadores. Ao contrário, O Que É Punk, traz uma narrativa simplista e popular. Porém, deixando claro as peculiaridades marcantes deste movimento juvenil que moldou a história da música mundial.
Volume: 76; 182 páginas; medidas: 16cm x 11cm; primeira edição: 1982.

Crônica Sobre o Urubu



Toda classe, grupo ou estereótipo tem algum tipo de representação simbólica. Seja um elemento natural, um caractere, uma flâmula ou um brasão, a ideia se expressará diretamente, subjetivamente ou metaforicamente. No gráfico, no multi dimensional ou mesmo no imaginário, a apresentação se impõe figurante. Porém, há aquelas simbologias estigmatizadas, que nascidas do vurmo contra cultural, são tão significantes quanto a escuridão para a claridade.
No ano de 1992, quando o Clube dos Quadrinheiros de Manaus foi criado, a missão de elaboração de seu símbolo, foi delegada ao artista plástico/desenhista/poeta João Castilho Neto. Em poucos dias, o mestre que na época contava com 42 anos de idade[1], apareceu em reunião deste grupo com o produto final. A forma circular com o nome Clube dos Quadrinheiros de Manaus rodeando o desenho, mostrou-se ideal para sua aplicação propagandista e qualquer outro tipo de atribuição. A técnica era do preto e branco simples, na mais fiel referência à arte autoral. O desenho em si, um animal lendo uma revista em quadrinhos. Diga-se de passagem que, ler histórias em quadrinhos é a conjugação que melhor define o ser quadrinheiro[2]. O bicho, um urubu. A logomarca foi acatada unanimemente.
No decorrer de todos esses anos, o Clube dos Quadrinheiros de Manaus ganhou muitas negações do poder público e privado em suas empreitadas independentes, como um urubu discriminado pela grande maioria. O quadrinheiro, membro do Clube, dificilmente é convidado para algum tipo de parceria. Exatamente como o urubu, um “marginal” do reino animal, que não chega nem a ser caçado por ter carne indigesta (a única vantagem disto é não ter predador natural). Por muitas vezes, sem nenhum tipo de recurso, o quadrinheiro, membro do Clube, usa da criatividade, fazendo reaproveitamento e reciclagens de suas ferramentas e de suas técnicas, para finalizar suas obras. Assim como o urubu, que encontra em qualquer canto seu lar e em qualquer lixeira seu alimento. No seu amadurecimento, o quadrinheiro, membro do Clube, corrige erros de seu passado e explana sua experiência em busca de profissionalização e dignidade em seus feitos contemporâneos[3]. Bem como o urubu que, no planar de seu voo tranquilo, espreita sereno a todos à quilômetros de altura.
Até hoje ainda há quem não se identifique com a nobreza deste ovíparo singular e mesmo quem não compreenda seu simbolismo lírico urbano. Contudo, as gerações se renovam num ciclo infindável de quadrinheiros do Clube, que tomam novos rumos, com o passar do tempo e de outros que chegam, com grande fome de produzir algo e agregar, portando camisetas nerds, escutando The Clash e lendo Baudelaire. Logo, não é difícil chegar a conclusão de que nenhum outro animal ilustra com tal perfeição o Clube dos Quadrinheiros de Manaus, como o urubu. Afinal, desprezado ou não, se trata de um animal que, como outro qualquer, só vive o direito de manter sua espécie.
Lembrem-se que enquanto houver claridade, haverá a escuridão, com todos os seus elementos pertinentes. Como diriam os Titãs, “...oncinha pintada, zebrinha listrada, coelinho peludo, vão se...”.




[1] Até a publicação deste texto, Castilho ainda continua em plena produção artística em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo.
[2] Quadrinhista ou Quadrinista, é o nome dado àquele que faz histórias em quadrinhos, a profissão. Quadrinheiro é o termo que significa aquele que compra, coleciona, cultua ou simplesmente lê histórias em quadrinhos.
[3] O Clube dos Quadrinheiros de Manaus acaba de adquirir seu Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – CNPJ.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Trecho de Selva Viva

             Abaixo reproduzo o trecho de um conto meu chamado Selva Viva que está inacabado. Como o conto é longo, ainda está na página 43, e sua história encontra-se um pouco depois de sua metade. Bem provável que ele seja publicado em formato único como livro.
          O romance em si é uma ficção científica com um solitário ribeirinho em seu habitat natural, bastante influenciada pelo seriado Arquivo X, o qual sou fã incondicional.
          O maior problema para terminá-lo está na pura falta de tempo para me dedicar ao projeto que outrora me seria meta.



             Em outra parte do laboratório os homens de branco trabalhavam nos dados emitidos pelos computadores que analisavam sem parar o corpo moreno estendido no líquido oxigenado naquele enorme aquário e ligado a cabos, tubos e eletrodos.  Um dos homens foi abordado por um outro, que mostrando papéis com alguns dados e radiografias de uma cabeça, disse:
              - Jacob, veja o que acabo de descobrir!  Conforme o diagnóstico contínuo cerebral, a sensibilidade e a expressão temporal e local do “cobaia inconsciente” está desprovida de uma seqüência coerente! – disse apontando uma certa área do cérebro radiografado - Sabe o que isso significa? – perguntou.
               - Creio que sim, mas me diga! – disse o outro curioso.
             - Sua noção de espaço-tempo está em lapso!  Ele não vive uma cronologia lógica! – completou o primeiro.
               - Isso é um sintoma de alguma doença psiquiátrica! – afirmou Jacob.
            - Sim, mas conforme análise dos dados da rotina do “cobaia”, ele realmente não seguia uma cronologia seqüenciada.  Até a própria fisiologia apresenta discordância de estado de saúde, idade, alimentação etc. – houve uma breve pausa na conversa permitindo uma rápida reflexão entre os protagonistas.  Então, ambos se olharam e Jacob disse:
               - Isto é impossível!
          - Vou comunicar imediatamente o Dr. Kinsk! – concluiu o que fez a descoberta se retirando com os papéis em mãos.
             Aquele “cobaia” vivia isolado da civilização, solitário e sem família.  A espécie perfeita pra ser analisada em cárcere laboratorial.  Ninguém ia reclamar liberdade e nem sequer informações sobre suas condições e estado de saúde.  Depois de detido, junto com seu animal de estimação, sua vida foi revirada.  Seu habitat registrado e estudado com o intuito de captar todo e qualquer detalhe que levasse a alguma pista de anormalidade.  Seus vizinhos mais próximos, por mais que estivessem alguns quilômetros de distância, foram todos interrogados a respeito do personagem e de sua rotina.  Se tivesse um pouco de sorte, voltaria a sua residência e a sua vida pacata.  Caso contrário, estaria fadado à disposição da ciência.
              Drª Helena ainda tinha muito serviço a fazer e chegou a conclusão de que não poderia pedir licença no momento.  Ao menos até terminarem aquele caso, visto que ela era uma pessoa crucial e insubstituível em suas funções.  Ela até estava acostumada a passar por isso.  As vezes, passava meses sem ver a família e certamente a cadência de trabalho era o motivo dela ainda continuar solteira, apesar de sua encantadora beleza, imensurável inteligência e ótima estabilidade financeira.
            Uma certa vez no interior do Mato Grosso, em pleno pantanal, ela e a equipe, tiveram de passar dois meses monitorando uma onça fêmea híbrida de uma espécie desconhecida.  Foram meses de monitoramento a distância que lhe rendeu alguns quilos a menos e uma instabilidade no horário de sono.  O triste disso tudo é que em boa parte desse trabalho era perdido.  Tratavam-se de estudos com o desconhecido e nunca se sabiam as conseqüências ou os imprevistos.  Algumas vezes o “objeto de estudo” sumia misteriosamente, noutras se auto destruía.  Isso chegava a ser frustrante.  Todo o trabalho perdido, provas desaparecidas e muito dinheiro desperdiçado.  Os poucos casos de sucesso não ficavam para seu conhecimento.  De relatórios com registro de imagens, até espécies mantidas, tudo era levado.  Ela não sabia muito bem pra onde e nem por quem, mas aprendera, logo no começo, que essa era uma etapa de seu trabalho a ser cumprida e que não havia margens pra questionamento a respeito.  O maior motivo dela ser muito bem paga, não era suas habilidades inquestionáveis e seu conhecimento excepcional, mas sim a compra de sua fidelidade e de seu silêncio.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Viúva Negra



Nos olhos, o azul predomina
Fácil me conquistou a menina
A boca rosa carnuda
Imagino-a plena desnuda
A pele branca cheirosa
Deixa-a mais que gostosa
Meiga e faceira
Me levou pra sua teia
Em um quarto escuro
Prazer e medo auguro
Com poucas palavras
Libidos em lavras
Parecendo uma serpente
Me lambeu de repente
Após o orgasmo
Surgiu o sarcasmo
Com calma a dama
Amarrou-me à cama
Uma navalha puxou
Com a qual me matou