Auto biografia artística virtual. Registros de eventos, resenhas, crônicas, contos, poesia marginal e histórias vividas. Tudo autoral. Quando não, os créditos serão dados.

Qualquer semelhança com a realidade é verdade mesmo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Amargo



Política rima com titica
Empresário com falsário
Latifúndio com distúrbio
E terno com inferno.
Cidade está com maldade
Saúde sem virtude
Som não é tão bom
Ambiente com muita gente.
O mundo está imundo
Religião é confusão
Padre te come a madre
Comungar pra enganar.
Ensejo pra enterro
Desprezo no manejo
Sangue até no mangue
Sorte traz a morte.
Eu perco o meu
Tu andas nu
Nós sem heróis
Vossa vida atroz.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Hey Ho Let's Go - A História dos Ramones

 Eis um livro de leitura deliciosa, repleto de dados, informações raras e depoimentos diversos de pessoas ligadas direta ou indiretamente à banda.  Hey Ho Let`s Go – A História dos Ramones, é detalhista em sua abordagem ao relatar desde (a óbvia infância dos membros) os primórdios do grupo, bastidores de gravações, abrangendo cada single lançado, cada álbum, faixa a faixa, passando por vídeo clipes, filmes, os inevitáveis conflitos internos, as frustrações em nunca conseguir o devido sucesso, as personalidades dos músicos e muito mais que moldou a trajetória de uma das mais influentes bandas de rock de todos os tempos.
Capa do livro lançado apenas em 2011 no Brasil
Traduzido por Neuza Paranhos, escrito pelo jornalista norte americano Everett True, essa brochura de 480 páginas, foi curiosamente lançado em 2011 pela Editora Madras.  Curioso, devido a esta editora ser especializada em títulos com a temática exotérica ou sensacionalista.  Salvo exceção de biografias de Elvis Presley e Johnny Cash.  Corajosa empreitada, esta.  Vale informar o atraso de 9 anos deste importante escrito, ao ser lançado no Brasil, visto que sua primeira edição saiu no ano de 2002.
Ensaio que originou a foto do primeiro álbum da banda
Mesmo os fãs ferrenhos podem encontrar surpresas nessa biografia.  Uma delas é o desvendamento do raciocínio de Dee Dee Ramone em deixar a banda, no auge de seu tardio reconhecimento.  Outra, mais significante ainda, é a de entender a postura paramilitar de Johnny Ramone.  Aliás, diga-se de passagem, postura esta que lhe arrematou um grande estigma de ditador dos “bro”, mas foi crucial para a manutenção do sucesso e principalmente da identidade dos Ramones, que manteve-se idônea por todos os 22 anos de carreira.  A propósito, este posto de “ditador”, antes era ocupado pelo baterista Tommy Ramone.  A prova disto, além dos depoimentos, está na direção das fotos.  Basta perceber que Tommy sempre aparecia no meio dos membros, em praticamente todas as fotos posadas do início de carreira, quando este ainda integrava a banda.  A relevância que teve C.J. Ramone, ao fazer parte da família.  A participação do esquecido Richie Ramone, e do mais esquecido ainda Clem Burke (baterista do Blondie substituindo Richie), que adotou o pseudônimo de Elvis Ramone e chegou a realizar dois péssimos shows com os “irmãos”.  Clem, simplesmente não se adaptou ao andamento rápido do chimbal, pois estava acostumado ao ritmo suave do Blondie.  Isto reforçou o retorno de Marky à banda.  O capítulo sobre a morte de Joey é emocionante.  Narra todo o sentimentalismo vivido por seus amigos, parentes e todos os profissionais envolvidos com esse grande ser humano que sempre deixará saudades.  Até Johnny, o eterno inimigo de Joey, expôs remorso e depressão com a perda irreparável.  Nota-se também, mesmo que superficialmente, as produções solos dos músicos; mais especificamente de Joey Ramone.  A falha do livro está na primeira pessoa explorada pelo autor, em impor sua desprezível opinião pessoal sobre determinadas obras dos Ramones.  Chega ao absurdo de considerar o gostoso “Pleasant Dreams” como um péssimo álbum.  Dentre outras bobagens ditas.  Contudo, isto não tira a delícia da leitura, pois acompanhar a história dos Ramones, é sempre um deleite para qualquer um que goste de música.  Várias fotos raras também estão dispostas, apesar da qualidade de impressão questionável.
Hey Ho Let’s Go – A História dos Ramones não é a obra prima biográfica desta lenda musical, mas consegue ser muito mais agradável do que a própria biografia “Ramones: An American Band”, lançado nos anos 90 por Jim Bessmann, em parceria com a banda, ainda inédita no Brasil (conforme quem leu ambas as obras).  Enfim, vale a pena adquirir.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Mais Novos Aforismos de Orestes



“De vem em quando, algum caso de corrupção será punido e sua divulgação efetivada em larga escala.  Isto faz parte da estratégia de sobrevivência da própria corrupção”

“Quando alguém se torna vegetariano, não come suplemento alimentar e morre devido à falta de vitamina B12, não morreu por ter se tornado vegetariano.  Morreu por ter sido ignorante”

“Não podemos nunca chamar um político de palhaço.  Isto é um desrespeito indigno com o profissional circense”

“Fazer a barba pode ser tido como a menstruação masculina”

“A maior prova de que palavras podem ser usadas como armas, está no sucesso financeiro de juízes de Direito, políticos, empresários e advogados”

“Quem nada sabe, pode especular sobre tudo”

“Se sexo em excesso enjoa, quero morrer de enjoo”

“O amadorismo move o Brasil.  A atuação de profissionais, está na condição de manter amadores ativos e o amadorismo vigente”

“Usar roupas coloridas e tocar uma guitarra na década de 60 era revolução, na década de 70 era alienação, na década de 80 era moda, na década de 90 era rebeldia, hoje em dia é palhaçada mesmo”

“É necessário que exista fé e religião, pois o efeito placebo ajuda na cura de doenças e no bem estar”

“Vivemos uma fase pior que a Ditadura Militar.  Naquela época, os déspotas eram assumidos.  Agora eles estão travestidos de democratas, republicanos, liberais e até libertários”

“A humanidade vive condicionada a um vício global.  O vício pela energia elétrica.  Mantenha abstinência por alguns dias e haverá uma série de crises imensuráveis”

“Inventaram a urna eletrônica para consolidar tecnicamente e profissionalmente as fraudes nas eleições”

“O raciocínio sempre despertará em prol do egoísmo individual.  Quando vier pelo bem estar coletivo, será devido à ímpeto irracional”

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Donos de Um Mundo Paralelo



Numa tragada rápida em seu cigarro, Bronu esperava ansioso encostado na parede, quando Armando chegou suando dizendo:
- Onde está nosso Senhor?
Bronu responde antes mesmo da pergunta findar-se:
- Puta que pariu!  Não sei, porra!
Armando fala inquieto:
- Temos de saber qual a atividade que nosso Senhor planejou.  Tudo tem de ser muito bem arquitetado e não podemos cometer falhas.  Nunca!
- Porra, o Senhor não comete falhas.  Ele é perfeito e temos de nos acostumar com isso – respondeu Bronu.
Nesse momento chega Tarlos com andar tranquilo e seu olhar sereno por baixo das grandes lentes de seus óculos.
- Meu Senhor!  Graças a Deus você apareceu.  Diga em sua sapiência magnífica.  Qual será nossa ação agora? – Armando disse, louvando a chegada de Tarlos.
Tarlos como pego de surpresa, retrucou em sua eterna voz baixa, que por muitas vezes deixa dúvidas no escutado:
- Nossa ação?  Qual será?  Não sei!  Vamos ver alguma coisa.  Não precisa ser algo tão elaborado que exija muito de nós.  Na verdade, qualquer coisa serve.
Armando entra em êxtase e louva Tarlos:
- Aaah!  Meu Senhor!  Eu sabia que você ia mostrar o seu talento.  Só o Senhor mesmo pra nos dar uma ação de verdade onde possamos fazer algo.
Bronu acende um cigarro novo com a ponta ainda acesa do cigarro antigo e fala:
- Puta que pariu!  E o que os outros do grupo irão falar?  Não podemos deixar eles questionar nada.
- O grupo não decide nada!  Não somos uma democracia e isso tem de ser acatado.  Engolido goela abaixo em silêncio.  Eu decido tudo! – exaltou Tarlos, em forte tom de voz.
- Sim!  O grupo que se foda!  Nosso Senhor sabe de tudo e não pode ser questionado em nenhum momento.  Se isso acontecer, eu defendo o meu Senhor. – afirmou categoricamente Armando.
- Vão se foder!  Eu também protejo o Senhor se alguém tentar se manifestar, ao menos uma vez sequer. – reforçou Bronu, soltando uma baforada de fumaça.
- Pela serventia, vocês vão ganhar camisetas novas.  Só tenho algumas dessas e elas só irão pra quem eu indicar.  Será a meritocracia indicada por mim e ninguém mais.  Estamos em ação e isso é um sigilo nosso. – Disse Tarlos.
Em uníssono, os dois puxa saco gritam eufóricos:
- Êêêêêêêêêêêêê!
Tarlos impondo moral cala-os:
- Silêncio!  Agora temos de partir logo pra ação e realizar a atividade de uma vez por todas.
Confuso, Armando pergunta:
- Senhor, não vamos fazer um briefing?
Tarlos se vê como um chefe, que tem de estar sempre propondo um cavalar calendário de atividades, missões, ações, treinamentos etc.  Tudo sem nenhum refinamento de inteligência e sem o mínimo de planejamento estratégico.  A quantidade de feitos agendados é o principal para ele.  Mostrando muito a ser feito, passa a idéia de efetividade, mesmo sabendo inconscientemente que nunca foi e nunca será um líder competente.  Nessa premissa, se impõe novamente:
- O briefing é o seguinte: eu irei na frente e vocês me seguem.  Se der alguma merda, Bronu dá um ataque de nervos em minha defesa, chamando todos de insistentes, e você entra com argumentos pífios.  Mas lembrem-se de elogiar alguns do grupo e falarem algumas coisas ruins de mim, pra que ninguém desconfie de nossa panela.  Vamos salvar o planeta!
Armando diz:
- Que merda!  É perfeito! – Na certeza de quem tem seu Senhor como mestre, não mede esforços para seguir aquele que tem como referência numa obediência cega e sem fundamento de coletivismo.
Bronu re afirma dando mais um trago no cigarro:
- Puta que pariu!  Tá perfeito mesmo.  Ninguém vai saber de nada, ainda mais os novatos que não têem parâmetro nenhum e aceitam felizes qualquer coisa que a gente colocar.
Armando insiste:
- Meu Senhor, qual material vamos usar?
Tarlos impaciente diz:
- Não precisa de material.  Se alguém reclamar, basta dizer que temos de usar apenas o que possuímos e que não podemos exigir nada de fora.  Agora chega de papo furado.  Vamos logo!
Os três saem em fila indiana, paralelos a uma parede, com Tarlos em primeiro, Armando em segundo repetindo cabisbaixo:
- Meu Senhor, meu Senhor, meu Senhor...
Bronu por último fumando seu cigarro com os olhos arregalados, visando o nada no horizonte.  Em sua magreza esquálida e suas vestes maltrapilhas, acredita que nada deve ser questionado e tudo tem de ser cumprido fielmente como ordenado por Tarlos.
Em alguns segundos chegam ao final da parede.  Tarlos para-os e diz em voz baixa:
- Chegamos!  Agora vamos à atividade.  Todos já sabem o que fazer e não devem questionar nada.  Agora vamos salvar o mundo. – voltam a caminhar em fila indiana, desta vez adentrando em outro ambiente com um muro baixo de grades altas.  Com mais alguns metros de caminhada, chegam numa guarita onde há um guarda sonolento acompanhado de dois enfermeiros.  Todos sentados conversando banalidades, só percebem o trio quando estes já tentam passar pelo portão principal.
Um dos enfermeiros se levanta na direção do trio dando o alerta:
- Hey!  O que vocês estão fazendo aqui?
Armando pula rapidamente na frente do enfermeiro dizendo em voz alta:
- Porra, cara!  Vocês têem que ajudar a gente.  Nossa missão é salvar o planeta e ninguém poderá nos deter.
O guarda se levanta e fala ao rádio:
- Apoio, precisamos de reforço aqui na portaria.  Três internos tentando fuga.
Enquanto o segundo enfermeiro tenta parar Tarlos, Bronu se mete entre eles soltando uma baforada de fumaça e apontando seu dedo fedido de nicotina na cara do staff, diz:
- Puta merda!  Esse pessoal é insistente mesmo.  Porra!  Vocês não podem atrapalhar a gente.  Vocês têem que ajudar, e não ficar atrapalhando.
Tarlos apressa o passo em direção do portão, mas é parado pelo guarda que agarra-o pro trás dizendo:
- Calma aí, rapaz!  Você não pode sair, não!
- Me solte!  Eu tenho um cargo.  Obedeçam a hierarquia e não façam nada pra me deter, porque eu sou poderoso.
Os enfermeiros agarraram os outros dois, enquanto se aproximavam mais outros quatro enfermeiros correndo.  Um dos funcionários já preparava injeções com tranquilizantes.
- Puta que pariu!  Fodeu!  Vão se foder, porra! – gritou Bronu jogando raivosamente o cigarro no chão.
Sua ira foi apaziguada por uma injeção enfiada em seu pescoço por um dos enfermeiros.
Armando ainda tenta argumentar:
- Respeitem a hierarquia.  Meu Senhor não foi eleito, mas o cargo é de direito e ninguém tira isso dele. – mas é paralisado por uma injeção tranquilizante.
Em poucos segundos os dois estão catatônicos no chão.  Em estado vegetativo, com os olhos arregalados e sem dizer nenhuma palavra.  Tarlos fica atônito com o olhar voltado para o chão.  Um dos enfermeiros coloca a mão em seu ombro e diz:
- Desculpe amigo, mas você sabe como são as normas aqui.  Vocês apenas obedecem o que impomos e não têem de ficar pensando nisso ou naquilo.  Apenas faça o que orientamos e você terá todas as regalias que você quiser.  Mas quando nós mandamos você cagar e comer, você tem de cagar e comer caladinho.
Tarlos apenas concorda calado balançando a cabeça positivamente.
Os funcionários apanham os internos, inclusive Tarlos, e começam a levá-los para as dependências internas.
O guarda ri falando para o único enfermeiro que ficou a seu lado:
- Coitados!  Pensam que são livres e vivem uma ilusão, liderados por um idiota com distúrbios de ego e que não tem noção da realidade em que se encontra.
Ambos olham para as pessoas se afastando com a certeza de que não demorará pra que a cena volte a se repetir com pequenas diferenças do que se sucedeu naquele momento.
Pobres mentecaptos, sonhadores em devaneios que abundam em manicômios pela extensão do país.  Vivem esquecidos ou ignorados por toda uma sociedade.  Por muitas vezes são agredidos fisicamente, abusados sexualmente, drogados em excesso e moralmente afetados.  Sem qualidade de vida, sem educação, sem saúde, sem saneamento e sem direito nenhum.



P. S.: Conto fictício em homenagem ao Movimento Por um Brasil Sem Manicômios.